História das Palavras Cruzadas

Breve história do jornal nova-iorquino The World (O Mundo), no qual foram publicadas as primeiras palavras cruzadas modernas e as primeiras histórias em quadrinhos.
 
O Jornal "The New York World"
Pioneiro em jornalismo e entretenimento
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      O criador das palavras cruzadas modernas, Arthur Wynne, ao tempo em que lançou a novidade, trabalhava como editor do jornal nova-iorquino The World (O Mundo), também conhecido como The New York World (O Mundo, de Nova Iorque).

       O edifício do jornal foi construído entre 10 de outubro de 1889 e 10 de dezembro de 1890. Nessa época, tornou-se a maior sede de um jornal nos Estados Unidos e a mais alta estrutura da cidade de Nova Iorque, superando a então recordista Trinity Church, que media 284 pés. O edifício do World tinha 309 pés de altura. Por ter sido financiado pelo dono do jornal, o famoso jornalista e escritor Joseph Pulitzer, o edifício se tornou conhecido também como o Pulitzer Building (Edifício Pulitzer). Em 1955, a construção foi demolida para possibilitar o acesso dos automóveis à Brooklyn Bridge.
"The World Building" (1905)

Edifício do 'The World'
      Joseph Pulitzer nasceu em Budapeste, a capital húngara, em 10 de abril de 1847. Chegando aos EUA ainda jovem, tornou-se jornalista em 1867 e político em 1869. Em 1879, Pulitzer fundou o St. Louis Post-Dispatch. Quatro anos depois, comprou o jornal The New York World, fundado em 14 de junho de 1860.
O primeiro número do jornal (1860)

O primeiro número do jornal
      Se quiser conhecer em detalhes essa primeira edição, incluindo um anúncio da campanha eleitoral de Abraham Lincoln, clique aqui (link interno).

      À época do lançamento, a publicação tinha 8 páginas e era direcionada ao público evangélico. A noção moderna de que a primeira página deve atrair leitores ou compradores ainda não tinha se estabelecido: a daquela edição só trazia anúncios. O jornal mudou de mãos várias vezes, sem obter sucesso, até ser comprado por Pulitzer em 1883. Em dois anos, tornou-se o mais popular periódico dos EUA.
Clichê do jornal (1913)

Clichê do jornal
       A declaração de princípios de Pulitzer, publicada em 10 de maio de 1883 e reproduzida todos os dias na página de editoriais, afirmava: "Uma instituição que sempre deve lutar por progresso e reforma, jamais tolerar injustiça ou corrupção, sempre combater demagogos de todos os partidos, jamais pertencer a algum partido político, sempre se opor às classes privilegiadas e aos saqueadores públicos, jamais faltar com a simpatia para com os pobres, sempre permanecer dedicada ao bem-estar público, nunca ficar satisfeita em meramente imprimir as notícias, sempre ser drasticamente independente, nunca sentir medo de atacar a injustiça, cometida seja pela plutocracia predatória, seja pela pobreza predatória."
Os princípios de Pulitzer

Os princípios de Pulitzer
      Na teoria, tudo perfeito. Mas na prática, muitos desses princípios ficaram no papel. Quanto à independência em relação aos partidos políticos, há um consenso histórico de que o World foi, durante muito tempo, o principal representante do Partido Democrata na imprensa norte-americana. Além disso, o jornal assumiu uma posição abertamente contrária à luta das sufragistas e atacou violentamente o movimento trabalhista norte-americano, que apelava para greves e manifestações públicas na tentativa de conseguir direitos básicos. A primeira página do World carregava nos crimes e nas disputas judiciais, e suas matérias davam excessiva importância a brigas conjugais e domésticas dos membros da alta sociedade.
Primeira página (1913)

Primeira página do jornal
      A combinação de sensacionalismo, jornalismo investigativo e fervor editorial marcaram o yellow journalism (jornalismo amarelo), rótulo pelo qual ficou conhecido o estilo do New York World.

      Um exemplo de sensacionalismo. Na edição de 26 de março de 1911, o jornal mostrou fotos de corpos carbonizados estendidos na calçada, após um incêndio numa fábrica de roupas no qual faleceram 54 pessoas. Nas edições seguintes, as histórias de horror daqueles que escaparam do fogo foram contadas em detalhes nas páginas do World.

      Um exemplo de jornalismo investigativo. Em 1887, a repórter Nellie Bly foi contratada por Pulitzer, passando a escrever matérias sobre as condições precárias de moradia e de trabalho dos pobres de Nova Iorque. Numa das matérias, Nellie fingiu-se de insana para entrar no asilo da ilha Blackwell. A descrição do modo como eram tratados os pacientes resultou na reforma da instituição.
Put it before them briefly so they will read it, clearly so they will appreciate it, picturesquely so they will remember it and, above all, accurately so they will be guided by its light. (Exponha o fato sinteticamente para que eles o leiam, claramente para que o apreciem, pictorialmente para que se lembrem dele e, acima de tudo, precisamente para que eles sejam guiados por sua luz). Joseph Pulitzer.
      O dia 10 de maio de 1913 marcou o trigésimo aniversário do jornal, fato que motivou um editorial comemorativo e auto-elogioso intitulado "Trinta Anos ¾ um Retrospecto". Afirmava o texto: "Trinta anos atrás, neste dia, Joseph Pulitzer tornou-se o editor e único proprietário do New York World. Aquele dia marcou o início de um novo jornalismo nos Estados Unidos ¾ um jornalismo destinado a ser independente de indivíduos, de interesses privados, de ambição pessoal, de facções políticas e de partidos ¾ um jornalismo devotado sem reservas aos propósitos públicos e aos princípios públicos, independentemente de qualquer outra consideração. ... No curso desses trinta anos, a Democracia travou seu combate contra a Plutocracia e triunfou. A supremacia dos direitos humanos sobre os direitos de propriedade foi estabelecida. ...".
Comemoração dos 30 anos

Os 30 anos do jornal
Os 30 anos do jornal
       Alguns leitores devem ter acreditado no editorial.

       O yellow journalism teve outra motivação importante, além da adaptação do conteúdo aos princípios do dono e diretor do World. No final do século XIX e no início do XX, o New York World e o New York Journal do magnata William Randolf Hearst disputaram a preferência do público nova-iorquino. A concorrência acirrada levou à exploração mais acentuada de notícias sensacionalistas e incluiu o uso de esquemas promocionais de todo tipo.

      Uma dessas promoções baseou-se na obra de Júlio Verne, "Oitenta Dias ao Redor do Mundo". Nellie Bly dispôs-se a bater o recorde registrado no livro, e o World instituiu, em 1889, um concurso para saber quem acertaria o número real de dias da viagem ao redor do planeta. Mais de 1 milhão de leitores participaram. A viagem durou 72 dias, 6 horas, 11 minutos e 14 segundos.

      Outra promoção, esta de importância histórica, foi a campanha para fundear o pedestal da Estátua da Liberdade, iniciada em 1885 pelo jornal. Cerca de 120.000 norte-americanos contribuíram com valores de 5 centavos de dólar a um dólar, permitindo a arrecadação de 300 mil dólares ao final de cinco meses de campanha.

      Segundo os historiadores, o real mérito de Pulitzer reside na criação do que passou a ser chamado new journalism (novo jornalismo), no qual os interesses populares recebiam uma atenção especial, as questões sociais eram tratadas a fundo e os jornalistas não mais precisavam fingir uma objetividade que de fato não possuíam, passando a assumir corajosamente posições a favor desta ou daquela causa. Pulitzer foi, de fato, o criador do moderno jornalismo norte-americano.
Selo comemorativo do centenário

Selo comemorativo do centenário de Pulitzer
      O adjetivo yellow (amarelo), presente na designação yellow journalismo, não veio das práticas do jornal, mas de Yellow Kid (O Garoto Amarelo), um personagem da seção de quadrinhos. A história do personagem é a própria história da criação dos quadrinhos.

      O desenhista Richard Fenton Outcault trabalhava para o World desde 1885, criando cartuns. Num trabalho paralelo na revista Truth (Verdade), Richard começou a publicar, em 2 de junho de 1894, cartuns centrados na vida de moradores de cortiços nova-iorquinos. Em 17 de fevereiro de 1895, Richard transferiu a série para o World e, em 5 de maio daquele ano, desenhou uma charge sobre um menino de traços orientais, careca, de orelhas grandes, uma falha nos dentes, e vestido com um camisolão de dormir, de cor amarela. A cor foi escolhida por motivos técnicos: de todas, era a que secava mais rapidamente. Em 16 de fevereiro de 1896, o personagem voltou a ser utilizado, agora batizado de Mickey Dugan. A criação agradou ao público e passou a aparecer regularmente na seção intitulada Hogan's Alley. Pouco depois, seu nome mudou para Yellow Kid (O Garoto Amarelo), o primeiro personagem de histórias em quadrinhos publicadas regularmente.
Livro sobre o Yellow Kid

Livro sobre o Yellow Kid
      Em 1896, William Randolph Hearst contratou Richard, que passou a desenhar o personagem para o New York Journal, o rival do World. Pulitzer levou o caso à Justiça, perdendo o direito ao personagem e ao retorno do desenhista, mas ganhando a exclusividade sobre o título Hogan's Alley. Richard passou a desenhar o Yellow Kid na seção McFadden's Row Of Flats, no Journal, enquanto outro cartunista (George Luks) tomava seu lugar no World, também desenhando o Yellow Kid. Foi dessa rivalidade que surgiu a denominação yellow journalism (jornalismo amarelo) para designar o estilo editorial dos dois periódicos, iniciado por Pulitzer e copiado pelo New York Journal, assim como ocorreu com os quadrinhos do Yellow Kid.
A seção de cartuns do World (16/8/1896)

A seção de cartuns do 'World'
A seção de cartuns do 'World'
Ilustração criada por Richard Outcault

Ilustração criada por Richard Outcault
      Abaixo, um anúncio do World em janeiro de 1895.
Anúncio de "A Volta ao Mundo com o Yellow Kid"

Yellow Kid
      Em 1902, Richard criou o personagem Buster Brown. "Buster" veio do (então) ator mirim Buster Keaton, e "Brown" de uma famosa marca de calçados. Veja abaixo imagens de um dos primeiros livros de quadrinhos dos EUA, contendo 30 tiras do personagem publicadas no jornal The New York Herald em 1905.
O personagem Buster Brown (1905)

O personagem Buster Brown
O personagem Buster Brown
O personagem Buster Brown
O personagem Buster Brown
O personagem Buster Brown
O personagem Buster Brown
O personagem Buster Brown
O personagem Buster Brown
O personagem Buster Brown
      Na edição dominical, o World publicava, além das seções regulares, um caderno com cartuns e quadrinhos, um outro caderno de tamanho reduzido intitulado Fun (Diversão), onde as palavras cruzadas foram lançadas em 21 de dezembro de 1913, e partituras musicais, às vezes com músicas compostas especialmente para os leitores do jornal.
Anúncios da edição dominical (1896)

Anúncio da edição dominical Anúncio da edição dominical
Anúncio da edição dominical Anúncio da edição dominical
O suplemento "Fun" (8/12/1912)

As seções dominicais
Anúncio do suplemento 'Fun'
O suplemento 'Fun'
Anúncio de partitura musical

Anúncio de partitura musical
Partituras oferecidas pelo jornal

Partituras oferecidas pelo jornal
      Veja abaixo dois anúncios de "Coca-Cola" que saíram no jornal em 1913.
Anúncios de "Coca-Cola" (1913)

Anúncios de 'Coca-Cola'
Anúncios de 'Coca-Cola'
       Joseph Pulitzer faleceu em 1911, deixando o jornal para seus dois filhos. O New York World foi vendido em 1930 e deixou de circular como jornal independente em 27 de fevereiro de 1931, ao ser comprado pelo New York Evening Telegram, que passou a se chamar New York World-Telegram.
O jornal "New York World-Telegram" (8/9/1943)

O jornal 'New York World-Telegram'
             Pulitzer passou à História como o criador do jornalismo moderno, além de ter fundado a Columbia School of Journalism, na Universidade de Columbia, que promove anualmente, desde 1918, a outorga do Prêmio Pulitzer, nas áreas de Jornalismo e Letras, em 21 categorias. É o mais prestigioso prêmio literário norte-americano.

      E o jornal The World entrou para a História como a publicação que lançou o novo jornalismo e que publicou os primeiros quadrinhos (em 1896) e as primeiras palavras cruzadas (em 1913). A única publicação ainda relacionada ao jornal, pelo nome, é o World Almanac (Almanaque do "World"), lançada em 1869, descontinuada em 1876, mas retomada em 1886 por Pulitzer. O Almanaque é publicado anualmente.

      Na próxima página, conheça o suplemento dominical Fun (Diversão), onde foram publicados os primeiros jogos de palavras cruzadas.
Referências
American Newspaper Repository
Children of the Yellow Kid: The Evolution of the American Comic Strip, Robert C. Harvery, University of Washington Press, 1998
Imagens da edição dominical e do anúncio do World copiadas do eBay
Imagens das partituras do World gentilmente cedidas por Karen Collins
Imagens do suplemento de cartuns do World (16/8/1896) gentilmente cedidas por Matt Pringle
Imagens dos quadrinhos de Buster Brown copiadas do eBay
New York World, em Spartacus.Schoolnet.co.uk
New York World-Telegram and Sun Collection, Biblioteca do Congresso Norte-Americano
Producing a Newspaper: 1892-1992, R. J. Brown, The History Buff
The History of New York State, James Sullivan (Editor), Lewis Historical Publishing Company, 1927
The Pulitzer Prizes, site oficial do Prêmio Pulitzer
The World, The Press Publishing Company, 3/4/1913 - 10/5/1913
The World Almanac, site oficial do almanaque
U.S. FDC: 32¢ Classic Comics Sheet of 20: Classic Collection Series, em http://www.unicover.com/EA1CAF1K.HTM (2002)
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice | Década de 10 | Arthur Wynne

Autor: Sérgio Barcellos Ximenes