História das Palavras Cruzadas

Resumo da evolução dos fatos sobre os jogos de cruzamento de palavras, desde a sua concepção inicial, no Antigo Egito, até a véspera da criação das palavras cruzadas.
 
Do Antigo Egito aos Estados Unidos
Passando pela França e pela Inglaterra
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      No princípio, era o acróstico. Criado no Antigo Egito por volta de 2000 a.C., constituiu-se na primeira ocorrência registrada de cruzamento de palavras ¾ na verdade, cruzamento de hieróglifos, desenhados em papiros daquela época.

      Esse enfeite literário serviu de inspiração a um desconhecido escriba, em algum ponto entre 2000 a.C. e 1350 a.C., levando-o à idéia de criar inscrições em estelas, nas quais frases verticais cruzariam com as frases horizontais do texto. Provavelmente, a experiência iniciou com apenas um cruzamento no sentido vertical, evoluindo para conter mais cruzamentos nos anos seguintes.

      Em 1350 a.C., a prática já apresentava um alto grau de complexidade: os hieróglifos eram gravados e pintados dentro de casas que faziam parte de uma grade reticulada semelhante à empregada atualmente nos jogos de palavras cruzadas; dentro da grade, todas as frases verticais cruzavam com as frases horizontais.

      Embora o texto das estelas apresentasse conteúdo religioso, o motivo para a existência dos cruzamentos era lúdico: segundo os arqueólogos, os antigos egípcios apreciavam o jogo de palavras como um fim em si mesmo, havendo inúmeros exemplos dessa atividade cultural.

      A criação de estelas com cruzamento de palavras durou, pelo menos, de 1350 a.C. a 950 a.C. Bem no meio desse período de quatro séculos, por volta de 1140 a.C., surge a estela de Paser, o mais complexo exemplar da prática. Gravada na pedra, uma grade constituída por 6400 casas delimita o cruzamento de 80 frases horizontais com 80 frases verticais, as quais perfazem um hino em homenagem à deusa Mut.

      Em termos de complexidade técnica quanto ao cruzamento de signos lingüísticos, a estela de Paser ainda é (e sempre será) inigualável. Basta dizer que o jogo moderno que mais se aproxima dela, composto com o alfabeto ocidental (mais especificamente, o inglês), consiste num quadrado duplo da palavras 8 x 8. O jogo da estela de Paser é um quadrado duplo de palavras 80 x 80.

      Esse período remoto de prática lúdica de cruzamento de signos lingüísticos ficou oculto na História, até ser revelado em livros e artigos de Arqueologia, a partir de 1938. Ainda hoje, é desconhecido no meio do enigmismo e também do público em geral.

      Apesar disso, quase todos os elementos que hoje compõem um jogo de palavras cruzadas estavam presentes naquelas criações dos antigos egípcios.

      O período histórico entre cerca de 950 a.C. e 1762 marca um grande vazio quanto à prática do cruzamento de palavras. Numa ponta encontram-se os acrósticos bíblicos, os primeiros registrados na cultura dita "ocidental"; na outra aparece o primeiro jogo de cruzamento de palavras da era moderna, o jogo do acróstico.

      Nesse meio-tempo, quase todas as culturas dedicaram-se ao acróstico, em suas formas simples ou complexas: inicial, central, final, duplo, triplo ou quádruplo.

      Também nesse meio-tempo surgiram o quadrado mágico SATOR, o amuleto abracadabra, a estela de Moschion e a pedra labiríntica de Silo, criações que continham a idéia do cruzamento de palavras com fins lúdicos. As três últimas tratavam-se, na verdade, de quadrados de letras, enquanto a primeira (o quadrado mágico SATOR) era um legítimo quadrado de palavras.

      Esse período de 2700 anos sem que surgissem jogos de cruzamento de palavras nas mais variadas culturas, já havendo o conhecimento do acróstico, contrasta com o período de cerca de 600 anos que foi necessário para que os antigos egípcios passassem do acróstico a esses jogos. Ou seja, mesmo vivendo numa cultura lingüisticamente pobre, os antigos egípcios deram o salto intelectual do acróstico literário para os jogos de cruzamento de palavras em cerca de 600 anos, enquanto todos os outros povos levaram, em conjunto, 2700 anos para ter a mesma idéia.

      Enquanto isso, aqueles povos dedicavam-se à criação de jogos de palavras que não envolviam o cruzamento de palavras. O mais antigo deles, as adivinhas, existia desde tempos imemoriais, embora, curiosamente, o mais remoto registro conhecido do jogo também remeta ao Antigo Egito, no ano de 1650 a.C.

      Os anagramas vieram a seguir, criados provavelmente em meados do primeiro milênio a.C. Os palíndromos (frases que mantêm o sentido quando lidas do final para o início) também surgiram na Antigüidade, em época imprecisa. Os enigmas, uma forma comprida e versificada de adivinha, estabeleceram-se como um jogo por volta do século V a.C. Os rébus (jogos em que ilustrações e desenhos servem como dicas para a solução) já apareciam em livros de passatempos no final do século XVI.

      Uma invenção de provável origem francesa, a charada, estreou nas publicações em 1711, gerando um modismo social no século seguinte quando a forma representada do passatempo, surgida por volta de 1820, chegou aos salões de festas e aos lares de franceses, ingleses e norte-americanos, entre outros povos.

      No século XVIII, os jogos baseados na reorganização das letras de uma palavra fizeram sua estréia: beheadment (decapitação, ou eliminação da primeira letra de uma palavra), transposition (transposição, ou reagrupamento de letras de uma palavra para formar uma outra), reversal (reversão, ou leitura invertida das letras de uma palavra para formar uma outra), logogrifo (jogo versificado em que a palavra-chave era expressa enigmaticamente, seguida de definições para outras palavras formadas por algumas das letras da palavra-chave), etc.

      A estréia mais importante do século, entretanto, foi a do jogo do acróstico, intitulado inicialmente rebus e depois acrostic charade (charada de acróstico). Lançado em 1762 na Inglaterra, o primeiro jogo moderno de cruzamento de palavras chegaria aos Estados Unidos por 1780.

      Mas o novo passatempo só ganharia popularidade na segunda metade do século XVIII, com a criação de sua forma dupla em 1852, ainda na Inglaterra. O double acrostic (jogo do acróstico duplo) apresentava palavras verticais na primeira e na última coluna de letras. Nas décadas seguintes, tornou-se um modismo nos EUA, incentivado por concursos e pelo lançamento de livros de jogos e dicionários de soluções.

       A divulgação do jogo do quadrado de palavras numa revista inglesa, em 2 de julho de 1859, seguida de sua divulgação nos Estados Unidos, em setembro de 1859 e outubro de 1862, marcaria o início dos jogos de cruzamento total de palavras, ou seja, aqueles em que todas as palavras verticais cruzam com as horizontais.

      A partir daí, o foco da história dos jogos de palavras muda sem volta, da Inglaterra para os Estados Unidos. O país experimentava um "boom" das publicações infanto-juvenis, nas quais havia uma seção de jogos de palavras que contava com intensa participação de crianças e jovens na criação dos jogos. A idéia de jogos de cruzamento de palavras baseados em forma geométrica (a primeira: um quadrado) "pegou" com força inédita: de 1870 a 1900, mais de 180 tipos básicos e variantes estrearam nas páginas daquelas publicações.

      Um feito criativo de tal magnitude justifica que se considere aquela geração de crianças e jovens enigmistas, ativa entre 1870 e 1900, como a mais brilhante da história dessa atividade.

      Mas essa geração não se destacou apenas nos jogos de palavras. Aproveitando-se da abertura do espaço em outras seções que não a dos jogos de palavras, proporcionada pelos editores das publicações infanto-juvenis, ela acabou se tornando co-participante da mais ousada experiência editorial já realizada no setor.

      Em especial, duas revistas infanto-juvenis, a St. Nicholas: an Illustrated Magazine for Young Folks (São Nicolau: uma Revista Ilustrada para os Jovens) e a Harper's Round Table (A Távola Redonda, da Harper), apostaram na criatividade do público jovem, tornando-o produtor de conteúdos. O resultado: nem mesmo em tempos de Internet existe o registro de uma interatividade criativa no grau apresentado por essa experiência realizada no final do século XIX.

      Apesar de toda a sua criatividade, essa garotada deixou escapar a oportunidade de inventar as palavras cruzadas. Isso porque todos os elementos técnicos do passatempo estavam presentes, pelo menos desde a década de 80 daquele século. E cruzar palavras era uma espécie de obsessão criativa das crianças e jovens da época. Mas o passatempo só viria a surgir em 1913, quando um adulto de 51 anos uniria os componentes esparsos deixados como herança por aquela brilhante geração de enigmistas.

      No início do século XIX, a evolução dos jogos de palavras havia se completado, tanto em forma e conteúdo (os componentes mencionados acima) quanto em público consumidor: no século XVIII, as mulheres; no século XIX, as crianças e os jovens; no século XX chegaria a vez dos adultos (muitos deles, crianças e jovens das gerações anteriores de enigmistas).

      A época estava pronta para as palavras cruzadas. É o que veremos na seção seguinte da "História", relativa à década de 10 do século XX.

      Se quiser conhecer centenas de imagens, textos e fatos históricos e curiosos das publicações consultadas para a realização desta "História", clique aqui para passar à seção sobre as Publicações Importantes.
Referências
Early American Word Puzzles, Will Shortz, "Word Ways", Vol. 7, Numbers 3-4 e Vol. 8, Numbers 1-2, 1974-1975
The Puzzler's Paradise, Helene Hovanec, Paddington Press Ltd., Nova Iorque, 1978
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes