História das Palavras Cruzadas

Reprodução da coluna Lessico e Nuvole (Léxico e Nuvem), de Stefano Bartezzaghi, publicada em 14 de junho de 2000 no La Repubblica. O artigo é baseado num segundo acróstico de Umberto Eco enviado ao articulista.
Logo abaixo do texto em italiano aparece a tradução literal.

 

Il Ritorno di Eco
O segundo artigo no "La Reppublica"
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       Umberto Eco colpisce ancora.

       Deve essere l'imminenza del Bloomday: il 16 giugno tutti gli appassionati di James Joyce entrano in agitazione, perché è il giorno delle peregrinazioni di Leopold Bloom per Dublino, raccontate nell'Ulysses. Umberto Eco è un grande joyciano, e guarda caso proprio in questi fatali giorni ha impugnato la sua penna o mouse o Joyce-stick e si è messo a giocare con noi. (s.b.).
                        Se credevi che andando in autobus 
                        avessi fatto con facilità 
                        tutto come Queneau, ecco che zitt
                        o (ed è un bell'enjambement) ora il secondo 
                        round io mi provo trepido a tramar. 
                        Andando per petrosi versi, e già 
                        rodeando con grazia e lieto andar, 
                        ecco proseguo, e tu mi dirai se 
                        potevo fare meglio, et allez op! 
                        Orgoglioso l'acrostico fecondo 
                        traccio, operoso come un martinitt, 
                        e i solchi per quegli alba prata che 
                        nel regger l'atro aratro si compon 
                        esili, per sottil trame semiotiche, 
                        tutti di nigrum semen seminabant 
                        opprimendo ogni tasto del lor pondo, 
                        prone le dita mie su quel click up. 
                        Ecco, raddoppio, ed in onor di Ermete 
                        ripetuto ho la prova, per provar 
                        ancora ardito, e una seconda volta, 
                        reiterata virtù di un avatar 
                        onesto dei signor dell'Oulipo. 
                        Tieni, ringrazia dio, ton dieu, oppur Gott: 
                        Ammetto che la rima c'è e ci sta 
                        Soltanto quando permetteva il mus.

                        Umberto Eco
NOTA DEL CURATORE
       La seconda poesia di Umberto Eco è molto più difficile (da scrivere e da leggere) di quella che abbiamo visto giovedì 8. Anche Il pendolo di Foucault è considerato del resto più difficile del Nome della rosa (e per me è anche e addirittura migliore), i secondogeniti fanno sempre tribolare.

       In questa seconda poesia e non a caso fra varie allusioni mistiche, viene citato Ermete.

       Una certa allusione alla fecondità si allaccia alle mitologie sottese alla Terra desolata di T.S. Eliot: Eco ci arriva anche attraverso l'antico indovinello "Boves se pareba, alba pratalia araba, albo versorio teneva, negro semen seminaba": che è la mano che scrive sulla pergamena.

       Altro punto forse da chiarire riguarda i "martinitt", alacri orfanelli milanesi. L'Oulipo invece non è l'Olimpo, ma quasi. E' l'associazione francese degli autori che si sono posti il problema di scrivere sotto costrizioni letterarie (come quella scelta da Eco in questa poesia). Domani, stesso luogo e stessa ora, la soluzione dell'enigma e una risposta di Lessico e nuvole a Umberto Eco. (s.b.).
O Retorno de Eco
       Umberto Eco ataca novamente.

       Deve ser a iminência do Bloomday: em 16 de junho, todos os apaixonados por James Joyce ficam agitados porque é o dia das peregrinações de Leopold Bloom por Dublin, relatadas no "Ulysses". Umberto Eco é um notável joyciano, e a seu próprio modo nestes dias fatais empunhou a caneta, o mouse ou o Joyce-stick e se pôs a jogar conosco.
                        Se acreditavas que viajando num ônibus
                        a questão tivesse sido resolvida,
                        tal como o fez Queneau, eis que quiet
                        o (e é um belo enjambement) agora o segundo 
                        round eu me encontro temeroso a tramar. 
                        Andando sobre versos pedregosos, e já 
                        rodeando-os com graça e alegre andar, 
                        eis que prossigo, e tu me perguntarás se 
                        poderia fazer melhor, et allez op! 
                        Orgulhoso, o acróstico fecundo 
                        traço, árduo como um martinitt, 
                        e os sulcos para semeá-lo, que 
                        no comandar o atro arado assim van 
                        esguios, por sutis tramas semióticas, e
                        todos de negras sementes germinando no hábitat,
                        oprimindo a cada passagem de seu peso, 
                        predispõem os meus dedos para aquele click up. 
                        Ei-lo aqui, e o duplico, e em honra de Ermete 
                        repetida tens a prova, para mostrar 
                        ainda ousado, uma outra vez ainda, 
                        reiterada virtude de um avatar 
                        obreiro e honesto dos senhores do Oulipo. 
                        Toma-o, agradece a deus, a ton dieu, ou a Gott: 
                        Admito que a rima ocorreu e aqui se encontra 
                        Somente quando a musa assim o quis.

                        Umberto Eco
NOTA DO RESPONSÁVEL PELA COLUNA
       O segundo poema de Umberto Eco é muito mais difícil (de escrever e de ler) do que aquele que publicamos no dia 8, quinta-feira. Também "O Pêndulo de Foucault" é considerado mais difícil que "O Nome da Rosa" (e, para mim, é definitivamente melhor); os nascidos em segundo lugar sempre dão trabalho.

       Neste segundo poema, e não por acaso, entre várias alusões místicas vemos citado Ermete.

       Uma certa alusão à fecundidade se liga à mitologia subentendida na "Terra Desolada" de T. S. Eliot: Eco chega aí também através da antiga adivinha: "(Com) Bois se parecia, alva pradaria arava, branco gotejador tinha, negra semente semeava": que é a mão que escreve sobre o pergaminho.

       Outro ponto que talvez deva ser esclarecido diz respeito aos martinitt, vigorosos órfãos milaneses. O Oulipo, por sua vez, não é o Olimpo, mas quase. É a associação francesa dos autores que se propuseram o problema de escrever sob constrições literárias (como a que se impôs Eco nesta poesia).

       Domingo, no mesmo lugar e na mesma hora, a solução do enigma e uma resposta de Lessico e Nuvole a Umberto Eco.

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O uso insistente do motivo do Quadrado Sator por um escritor da importância do italiano Umberto Eco é uma prova do fascínio que esse jogo de palavras ainda exerce sobre o ser humano, quase dois milênios depois de sua criação.
      Algumas observações adicionais do autor deste trabalho:
  • Queneau foi um escritor francês surrealista que gostava de criar jogos de palavras.

  • O enjambement entre o terceiro e o quarto versos constitui-se na separação do "o" da palavra "quieto" (no original, zitto). O enjambement (também chamado encavalgamento, terminação falsa, quebra de verso, etc.) é o recurso de finalizar o sentido de um verso apenas no início do seguinte. O uso feito por Umberto Eco, quebrando uma palavra, é muito raro.

  • Et allez op! é uma expressão francesa para a qual não se encontrou tradução, mas que parece significar "então vamos!".

  • No antepenúltimo verso, Eco utiliza três idiomas: o italiano (ringrazia dio), o francês (a ton dieu) e o alemão (Gott). Em todas as formas, o substantivo é traduzido como "Deus".

  • Foram necessárias algumas adaptações na tradução do texto para preservar o objetivo de Umberto Eco: criar um acróstico duplo em que as palavras SATOR - AREPO - TENET - OPERA - ROTAS fossem lidas tanto na primeira coluna de letras quanto na última, nos dois sentidos.

      Na próxima página, conheça a utilização do Quadrado Sator na estrutura de um dos mais complexos romances brasileiros, "Avalovara", de autoria de Osman Lins.
Referência
Coluna Lessico e Nuvole de 14/6/2000, do jornal La Repubblica, reproduzida com a permissão de Stefano Bartezzaghi
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice | Ancestrais | O Quadrado Mágico Sator

Autor: Sérgio Barcellos Ximenes