História das Palavras Cruzadas

A expansão da participação das crianças e adolescentes na publicações infanto-juvenis do final do século XIX.
 
As Crianças Vêm Aí
Se são boas em jogos, serão boas em outras atividades?
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      Para ter-se uma exata noção da importância do feito conseguido pela geração de crianças e adolescentes norte-americanos que viveu entre cerca de 1870 e 1900, importa considerar primeiro as condições de vida daquelas crianças e daqueles jovens.

      Tanto as crianças do campo quanto as das cidades levavam uma vida caseira. Nenhum dos meios de comunicação que atualmente consideramos "indispensáveis" haviam sido criados, então: rádio, TV, telefone, muito menos o computador e a Internet. As diversões restringiam-se às mesmas brincadeiras transmitidas de geração em geração e a alguns novos brinquedos mecânicos e de montar. O gramofone e o Cinema não existiam; a câmera fotográfica chegaria ao mercado no final do século XIX.

      As cartas publicadas na seção de correspondência das publicações infanto-juvenis retratavam o cotidiano dos meninos e meninas. Nos dois exemplos abaixo, publicados no tablóide Young Folks' Circle (O Círculo da Garotada), crianças do meio rural contavam um pouco de sua vida. A semelhança na redação indica que o responsável pela seção deve ter editado, ao menos quanto ao estilo, o conteúdo da correspondência.
Cartinhas de crianças

Cartas infantis no 'Young Folks' Circle'
      "Sou um menino de seis anos. Vivo numa fazenda de 60 acres. Não tenho irmãos nem irmãs. Tenho um bezerro chamado Dutchey e um gatinho de nome 'Bola de Neve'. Começarei a freqüentar a escola neste inverno. O prédio da escola pode ser visto de onde moro."

      "Sou um menino de onze anos. Vivo numa fazenda de 120 acres. Tenho cinco irmãos mais velhos que eu. Quanto aos animais de estimação, tenho um pônei, com o nome de Anão, e um cão chamado Capitão. Ultimamente sofremos uma seca prolongada, mas hoje chove. A safra de trigo foi boa, mas está custando só 75 cents por alqueire."

      A ausência de métodos seguros de contracepção "inchava" as famílias muito rapidamente. Se o pai, responsável pelo sustento, adoecesse ou viesse a falecer, a sobrevivência dos filhos ficava em risco, especialmente quando a mãe não conseguisse um emprego. Naquele tempo, os Estados Unidos estavam longe de ter o poderio econômico que desfrutam na atualidade. Nas grandes cidades, a miséria era comum. Pode parecer inacreditável hoje em dia, mas de meados para o final do século XIX era comum a colocação de um anúncio por uma mãe desesperada, oferecendo de graça um de seus filhos devido à morte do esposo, um recurso extremo para aliviar as dificuldades econômicas da família. O anúncio reproduzido a seguir pode ser visto, no original, nesta página, como saiu no New York Daily Tribune (Tribuna Diária de Nova Iorque), em 14 de janeiro de 1856:

WHO WANTS A LITTLE BOY? -- A Widower, with six children, has a LITTLE BOY, 
8 years old, that he would like some respectable person to ADOPT.
 Inquire of Mrs. MITCHELL, No. 471 Houston-st., corner of the Bowery.

QUEM QUER UM MENININHO? -- Uma Viúva, com seis filhos pequenos, tem um MENININHO, 
de 8 anos de idade, que gostaria que alguma pessoa respeitável o ADOTASSE. 
Falar com a Sra. MITCHELL, No. 471, rua Houston, na esquina da rua Bowery.
      Uma observação importante: a prática não era um crime, como o prova a aceitação do anúncio por um dos mais importantes jornais norte-americanos da época.

      No mesmo ano, no segundo semestre, o anúncio abaixo saía no periódico Illustrated London News (Notícias Ilustradas de Londres), o mais prestigioso da Inglaterra. Nele, um reverendo demonstrava o desejo de conseguir um órfão entre 4 e 6 anos de idade para fazer companhia ao seu filho único. Outro menino já exercera essa função, durante dois anos. O apelo era feito diretamente aos guardiães do órfão possivelmente disponível. Esses anúncios revelam que a situação da criança, naquela época, beirava a total desproteção física e psicológica.
Solicitação de criança disponível

Oferta de crianças na 'Illustrated London News'
      A educação centrava-se na transmissão da cultura e no controle do comportamento. Quanto ao primeiro item, dada a inexistência de uma cultura popular e de massa, o conteúdo consistia da cultura clássica, acrescida das novidades da época. Por esse motivo, os jogos de palavras viriam a reproduzir o alto nível cultural espelhado nas páginas de vários periódicos infanto-juvenis daquele tempo, especialmente a St. Nicholas: For Girls and Boys (São Nicolau: Para Meninas e Meninos), considerada ainda hoje a mais culta revista infanto-juvenil da História.

      No campo do controle do comportamento, eram dominantes os ensinamentos religiosos e os princípios civis da obediência e da imitação do comportamento adulto. Os editores das publicações infanto-juvenis cumpriam a função de fomentar o "sonho norte-americano", incutindo nos pequenos cidadãos os valores de trabalho, obediência aos pais, amor ao país e moralidade social. A própria representação das crianças nas ilustrações dessas revistas e tablóides, estranhamente padronizada, denunciava essa tendência: os rostos geralmente não refletiam crianças verdadeiras, mas adultos de feições reduzidas, como se pode constatar nesta página da "História".

      Os meios de transporte da época podem ser classificados como "primitivos": cavalo, carruagem, trem e bonde elétrico, este apenas nas grandes cidades. Carros, ônibus e aviões, somente no século seguinte. A bicicleta viria a aparecer com freqüência nos anúncios somente a partir de 1880. No primeiro anúncio mostrado abaixo, o veículo é elogiado por ser "melhor do que um cavalo porque você pode andar mais milhas com ela (a bicicleta Columbia), durante um dia, do que com um cavalo, e ela não come nada."
Anúncios de bicicleta: 1880 e 1894

Anúncio de bicicleta
Anúncio de bicicleta
      Conhecendo esse contexto histórico, torna-se fácil entender os motivos que levaram as crianças e os adolescentes norte-americanos a tornar os jogos de palavras um meio de realização pessoal nas décadas finais do século XIX. Nas revistas e tablóides destinados a esse público-alvo, tudo era produzido pelos adultos e vinha com a marca da doutrinação estampada. Uma publicação típica oferecia histórias seriadas, matérias sobre curiosidades, relatos de viagens, explicações científicas e tecnológicas, biografias de personalidades históricas, além de conselhos diretos. Somente duas seções mantinham-se à margem da ideologia oficial: a seção de correspondência e a dos jogos de palavras ¾ justamente as únicas cujo conteúdo era provido pelos jovens leitores.

      Introduzidas na década de 30 e popularizadas em meados do século, essas duas seções permitiam que as crianças e os adolescentes expressassem livremente suas impressões pessoais (por meio das cartas) e sua criatividade (por meio dos jogos). Nas publicações supostamente feitas para eles, crianças e jovens, mas que não os respeitavam como eram, deixando claro que deviam ser diferentes, aquelas seções, livres do "filtro" adulto, logo se tornariam as preferidas da maioria dos jovens leitores.

      É bem verdade que o editor da seção de cartas às vezes comentava os relatos das crianças sobre a vida em família e seus interesses pessoais, enquadrando moralmente a comunicação. Mas era tarde: a mensagem já chegara aos colegas, seus verdadeiros destinatários.
O proibido prazer de jogar bolas de neve

Carta de criança
      Escrevia Richard G.: "Gostaria de saber se você não acha desagradável que a lei não nos permita jogar bolas de neve na rua ¾ o melhor tipo de esporte para um menino." A resposta do editor adulto começava com "Sim, se eu fosse um menino, não teria dúvidas sobre isso. Mas, sendo um adulto, ..." E seguia-se a tradicional doutrinação moral sobre bons costumes. A carta saiu na revista Our Boys and Girls (Nossos Meninos e Meninas), em 1871.

      Apesar disso, a oportunidade de participar num empreendimento adulto, de se expressar e de brincar com os colegas fazia das seções de cartas e de jogos de palavras algo único na vida daqueles jovens. Curiosamente, as duas seções geralmente vinham uma depois de outra, nas publicações infanto-juvenis, como se os próprios editores tivessem consciência da sua natureza semelhante.

      Vale lembrar que os jornais e as revistas eram toda a mídia existente naquela época. Muitas crianças e jovens devem ter percebido o óbvio: estava ali uma oportunidade inigualável de se tornarem não apenas conhecidos, mas até mesmo famosos numa área de atividade (os jogos de palavras). E foi isso mesmo que aconteceu com vários daqueles jovens, cujo pseudônimo passou a indicar um trabalho de alta qualidade, admirado e emulado pelos colegas.

      A quantidade de seções de jogos de palavras disponíveis nas décadas finais do século XIX é um testemunho da garra e da criatividade admiráveis com que os jovens norte-americanos aproveitaram a oportunidade de destaque proporcionada por aqueles veículos. Foi seu próprio esforço de produção de jogos que criou e ampliou esse espaço, como vimos em página anterior. Concretamente, os jogos de palavras foram a primeira área em que as crianças norte-americanas puderam se destacar, ante as outras e aos olhos dos adultos.

      Na próxima página, veja como a revista St. Nicholas: For Girls and Boys (São Nicolau: Para Meninas e Meninos) começou a expandir essa participação infanto-juvenil até que abarcasse várias de suas seções.
Referências
Illustrated London News, George C. Leighton, Londres, junho a dezembro de 1856
Nineteenth-Century Adoption Advertisements (1856), Pat Pflieger, 1999
Our Boys and Girls, Oliver Optic, Lee and Shepard (Publishers), Boston, janeiro a dezembro de 1871
The Youth's Companion, Perry Mason & Co, Boston, 1880 e 1894
Young Folks' Circle, Mast, Crowell & Kirkpatrick (Proprietors), Springfield, 1884
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes