| História das Palavras Cruzadas |
| A difusão das seções de jogos de palavras, das revistas religiosas para as laicas. |
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As Crianças Optam pela Brincadeira
"É triste ver a Ciência superar a Religião" ¾¾¾¾¾¾ |
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O surpreendente desenvolvimento das seções ou departamentos de jogos de palavras nos periódicos norte-americanos do século XIX, mostrado na página anterior, resultou mais de uma escolha autônoma de seu público-alvo, as crianças e os adolescentes, do que da intenção dos editores dessas publicações.
Na primeira metade daquele século, os jogos eram publicados principalmente nas revistas e jornais infanto-juvenis de cunho religioso, majoritários em relação às publicações laicas que também ofereciam esse conteúdo. Os jogos seguiam uma orientação doutrinária, baseando-se sempre em temas bíblicos ou morais. As outras publicações destinadas aos jovens, não ligadas a órgãos religiosos, também procuravam incutir nos leitores sua noção particular de decência e de civilidade, refletindo os mesmos valores do mundo adulto que transpareciam nas outras páginas, em especial nas histórias e poesias moralizadoras, típicas dessas revistas e tablóides. Na segunda metade do século, as instituições religiosas ainda eram responsáveis pela maioria das publicações infanto-juvenis, como já foi mencionado. Mas nesse período ocorreram dois fatos novos que viriam a mudar o gosto do público leitor: a difusão das seções de jogos de palavras nas revistas laicas e a introdução dos jogos de cruzamento de palavras nessas colunas, com sua temática mais diversificada, dissociada do conteúdo moralista. A partir daí, brincar com as palavras passou a ser mais importante que receber lições de moral através delas. O mundo infantil começou a se sobrepor ao mundo adulto. A mudança tornou-se evidente nos anos 70 do século XIX, década da popularização dos jogos de cruzamento de palavras e do lançamento da mais importante revista infanto-juvenil dos Estados Unidos, a St. Nicholas: For Girls and Boys (São Nicolau: Para Meninas e Meninos), cuja seção de jogos de palavras logo viria a se tornar uma referência. As crianças e os adolescentes passaram a demonstrar uma nítida preferência pelo novo estilo de jogo, diferente na forma e no conteúdo daqueles oferecidos pelas publicações religiosas. A prova incontestável dessa afirmação encontra-se num longo editorial do jornal The New York Times publicado em 10 de abril de 1877. Intitulado Puzzles (Quebra-Cabeças), inicia-se com estas palavras: "The endless conflict between science, so called, and alleged religion is constantly showing itself in unexpected places (O infindável conflito entre a suposta ciência e a pretensa religião manifesta-se constantemente em lugares inesperados)." O texto segue mencionando o abismo entre os conhecimentos geológicos e o Darwinismo, de um lado, e a doutrina religiosa, de outro. "It will, however, surprise most people to learn that in the field of puzzles and enigmas science has far outstriped the limits prescribed by the editors of religious newspapers, and that the public mind is being perverted by scientific puzzles to an extent that ought to fill us entirely full of all sorts of proper emotions." (Será, entretanto, uma surpresa para a maioria das pessoas saber que no campo dos quebra-cabeças e dos enigmas a ciência ultrapassou em muito os limites prescritos pelos editores dos jornais religiosos, e que a mente do público está sendo pervertida por quebra-cabeças científicos a um ponto que deveria nos tomar inteiramente com as reações apropriadas.) Na tentativa de provar o seu ponto, o autor fornece uma excelente síntese do surgimento das seções de jogos de palavras nos Estados Unidos. "For many years, most of our religious newspapers have had a puzzle department, designed for Sunday use. In this department two kinds of puzzles were recognized as peculiarly suitable for Sunday solution. These were the old-fashioned enigma and the mathematical conundrum." (Por muitos anos, a maioria dos jornais religiosos tinha uma seção de quebra-cabeças, criada para a edição dominical. Nessa seção, dois tipos de quebra-cabeças eram reconhecidos como particularmente adequados para a solução num domingo. Eram eles o antiquado enigma e a adivinha matemática.) O enigma mencionado no artigo é o enigma numérico. A adivinha matemática tratava-se de uma situação hipotética que continha uma questão matemática a ser resolvida. O editorial segue com exemplos irônicos do conteúdo desses jogos, mas defende-os por veicularem mensagens edificantes. E depois relata a extraordinária popularidade daquelas seções dominicais: "That the Sunday puzzle department was from the first a popular feature of the religious press must be conceded. It was usually studied with more interest than any other part of the paper, and there can be no doubt that it did incalculable good. On Sunday evenings serious families were accustomed to sit around the table with pencils and paper in their hands, and to distract their thoughts from wordly subjects and cultivate the best interests of their souls by striving to find out how many apples the boy kept for himself, and what was the precise distance between the man's house and his aunt's house." (Deve-se reconhecer que a seção dominical de passatempos foi, desde o início, uma atração popular da imprensa religiosa. Ela era estudada geralmente com mais interesse do que qualquer outra seção do jornal, e não resta dúvida de que fez um bem incalculável. Nas tardes de domingo, famílias religiosas estavam acostumadas a sentar-se em torno da mesa com lápis e papel nas mãos, e a distraírem seus pensamentos de assuntos mundanos e cultivar as melhores influências de suas almas por meio da tentativa de saber quantas maçãs o menino guardou consigo, ou qual era a distância exata entre a casa do homem e a da tia dele.) |
Conteúdo típico de uma revista religiosa
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O editorialista prossegue em seu argumento, elogiando os quebra-cabeças por terem desviado a atenção dos jovens de atividades menos espiritualizadas, como a leitura de romances populares.
"But the very success of the religious puzzles provoked that objectionable personage who is sometimes darkly referred to as the Adversary to retaliaton. By degrees the merely secular children's publications displayed puzzle departments of their own, in opposition to the religious puzzles. Science now mingled in the fray, and, of course, espoused the side which proposed opposition to religious puzzles. If we merely glance at a modern juvenile magazine, we find an array of puzzles of the most abtruse character. The old-fashioned pious enigmas and conundrums are ignored, and in their place we have pictorial puzzles that baffle the ablest intelects. Mysterious enigmas known as 'pyramidal' or 'square words', 'hidden cities', and 'inverted Generals' are also to be found in company with the pictorial puzzles, and the trail of the scientific person is over them all." Tradução: "Mas o próprio sucesso dos quebra-cabeças religiosos levou à retaliação por parte daquele personagem censurável que é às vezes obscuramente referido como 'o Adversário'. Gradualmente, as publicações seculares para crianças passaram a oferecer seções de quebra-cabeças próprias, em oposição aos jogos religiosos. A ciência agora imiscuía-se na briga, e, evidentemente, perfilhava do lado que propunha oposição aos jogos religiosos. Se nós olharmos de relance para uma revista infanto-juvenil moderna, encontraremos um bando de quebra-cabeças do tipo mais abtruso. Os antiquados enigmas e adivinhas são ignorados, e em seu lugar temos os quebra-cabeças ilustrados que desconcertam os mais capazes intelectos. Enigmas misteriosos conhecidos como 'piramidais' ou 'quadrados de palavras', 'cidades ocultas' e 'generais invertidos' são também encontrados em companhia dos quebra-cabeças ilustrados, e o rastro da mentalidade científica está em todos eles." O "Adversário" citado no texto refere-se ao Diabo. Observe como o articulista menciona dois jogos de cruzamento de palavras (o jogo da pirâmide e o quadrado de palavras) e lhes atribui parte da "culpa" pelo modismo das seções de jogos de palavras, que contagiou crianças e adolescentes a partir daquela década. Na continuação, o editorialista chega ao ponto central de seu argumento contra os novos jogos de palavras: "No man can examine these puzzles and say they are adapted to awaken solemn and improving thoughts. If they are not directly corrupting in their tendency, they are, at any rate, wordly and secular." (Ninguém pode examinar esses quebra-cabeças e dizer que são apropriados para despertar pensamentos solenes e de aperfeiçoamento. Se não são diretamente corrompedores em sua tendência, eles são, de qualquer maneira, mundanos e seculares.) Depois de afirmar que os jogos eram impróprios para serem solucionados num domingo ("unfit for Sunday solution"), o jornalista finaliza com esta conclusão: "It is sad to be compelled to mention that these secular puzzles are supplanting the religious puzzles in the affections of youth, and that science is thus triumphing over religion to a painful and disheartening extent." (É triste ser obrigado a mencionar que esses quebra-cabeças seculares estão suplantando os jogos religiosos na afeição da juventude, e que a ciência está assim triunfando sobre a religião numa amplitude penosa e desalentadora.) O editorial serve para ilustrar alguns fatos importantes na história dos jogos de palavras, relativos ao período que precedeu a criação das palavras cruzadas:
Na próxima página, acompanhe a formação das primeiras organizações de enigmistas, incentivadas pelos editores das seções de jogos de palavras. |
| Referências |
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Puzzles, The New York Times, 10/4/1877
The Children's Magazine, E. P. Dutton & CO., Nova Iorque, junho de 1873 |
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice
| Ancestrais | A Era de Ouro do Enigmismo
Autor: Sérgio Barcellos Ximenes
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