História das Palavras Cruzadas

O texto da estela de Paser, o mais complexo jogo de cruzamento de signos lingüísticos de toda a História.

 
Um Autêntico Problema de Palavras Cruzadas
A prova definitiva
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      A conclusão mais importante sobre o texto da estela de Paser a que chegou o professor Stewart, muito mais equipado para a tarefa do que os colegas responsáveis pelos estudos anteriores, foi esta: eles estavam certos ao afirmar que a estela continha o mais complexo jogo de cruzamento de signos lingüísticos já encontrado por arqueólogos.

      A complexidade chegava a espantar. Os professores J. Clère e Jan Zandee tinham interpretado que a linha com os hieróglifos de instrução para a leitura sugeria que as inscrições fossem lidas em dois sentidos, o horizontal e o vertical. O professor Stewart discordou dessa interpretação, atribuindo-a simplesmente a um erro na observação visual daqueles sinais, devido à precariedade do material disponível na época:
Dois ou três sentidos?

Hieroglifos que significam 'leia de 3 maneiras'

Linha com a instrução de leitura

Trecho com a tradução dos hieróglifos
      Onde os outros professores viram 2 traços abaixo do círculo pontilhado, Stewart identificou 3 deles. Daí a perplexidade registrada no texto de seu artigo: "Como as palavras cruzadas e os acrósticos normalmente são lidos em apenas duas direções, a instrução para ser lida 3 vezes na rubrica acima é intrigante". A possibilidade de que a instrução se referisse apenas a uma leitura atenta do texto, três vezes seguida, chegou a ser cogitada. Mas a descoberta de que o texto era totalmente inteligível quer no sentido horizontal, linha a linha, quer no sentido vertical, coluna a coluna, levou à certeza de que haveria um terceiro sentido de leitura. E esse só poderia estar, dada a natureza da escrita hieroglífica, no contorno da grade: os hieróglifos situados na primeira e última linhas e na primeira e última colunas.

      Para quem acha estranho ou impossível esse nível de complexidade numa época tão remota, a hipótese apresentada pelo professor Stewart para essa novidade deve soar quase inacreditável:
Dois séculos de brincadeiras

Os 200 anos da técnica da 'cruzada' egípcia
      Àquela época, explica o professor, a prática de cruzar hieróglifos em inscrições (no jargão arqueológico, the crossword technique - a "técnica das palavras cruzadas") já chegava, pelo menos, ao seu segundo século. Isso mesmo, duzentos anos de prática. Compare com as cruzadas modernas, que ainda não completaram 100 anos de "idade", por terem sido criadas em 21 de dezembro de 1913.

      A afirmação do professor Stewart é totalmente lógica. Não faria sentido que um escriba se dispusesse a criar uma "cruzada" de hieróglifos de 80 casas horizontais por 80 casas verticais sem que tivesse havido antes uma longa evolução, a partir dos primeiros e mais simples exemplares dessa técnica, passando-se primeiro por grades menores, de execução mais fácil. Só uma grande perícia na disposição cruzada dos hieróglifos, adquirida por meio de uma longa prática, justificaria o propósito desse desconhecido escriba. E, como já vimos (a estela de Neb-wenenef, datada do final do século XIII a.C.), há provas da existência de outras inscrições com cruzamento de hieróglifos desde mais de 100 anos antes da estela de Paser (datada da primeira metade do século XII a.C.).

      Com toda a certeza, os acrósticos e as "cruzadas" de hieróglifos encontradas nas estelas egípcias derivaram da prática de compor acrósticos em papiros, comum no Antigo Egito por volta do final do segundo milênio antes de Cristo. Portanto, a provável evolução deve ter seguido o caminho: acrósticos em papiros - acrósticos em estelas - "cruzada" de hieróglifos em estelas. Como veremos adiante, essa evolução foi muito mais rápida do que a ocorrida na cultura ocidental moderna, dos acrósticos literários até as palavras cruzadas.

      No mesmo trecho do artigo, o professor Stewart informa que o criador do texto dessa obra-prima pode ter introduzido o terceiro sentido de leitura como uma forma de ... chamar a atenção dos conterrâneos para o seu trabalho. E reconhece que as "dificuldades foram formidáveis" e bem superiores às encontradas pelos criadores de todos os outros exemplares semelhantes de cruzamento de hieróglifos, devido especialmente às longas frases e ao sentido contínuo dado ao tema do texto.

      Quatorze páginas do artigo são reservadas à tradução das 80 frases horizontais e 67 frases verticais, o que serve como a prova final de que se tratava realmente de um grande jogo de cruzamento completo de palavras. Até hoje, o mais sofisticado de que se tem notícia. Na tradução, é comum uma linha ou coluna de hieróglifos ocupar 5 ou 6 linhas de texto, tamanho que ilustra a complexidade da tarefa do anônimo criador.
Tradução das frases da estela

Tradução das linhas da estela
Tradução das colunas da estela
      Na próxima página, veja a reprodução dos hieróglifos da parte superior da estela.
Referência
A Crossword Hymn to Mut, H. M. Stewart, The Journal of Egyptian Archaeology, Volume 57, 1971, imagens reproduzidas por cortesia da Egypt Exploration Society
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice | Ancestrais | As "Cruzadas" Egípcias

Autor: Sérgio Barcellos Ximenes