História das Palavras Cruzadas

A última fase da história das charadas, marcada pela popularidade em todos os segmentos sociais e pela sua transformação no jogo da mímica.
 
O Jogo de Escritores, Cientistas e Reis
O auge do modismo das charadas
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      Um artigo da revista Atlantic Monthly (Mensário do Atlântico) sobre George Sand (Aurore Dupin) publicado em 1878, dois anos depois da morte da escritora francesa, ressaltava seu gosto pela charada representada. Essa prática teatral doméstica acabou se tornando o embrião de algo mais sério para a autora quando, nas reuniões sociais, o compositor Fréderic Chopin passou a improvisar ao piano, enquanto os convidados representavam ou dançavam cenas correspondentes à melodia. A partir daí, as brincadeiras evoluíram para o teatro de marionetes até chegar a dramas e comédias mais elaboradas.
George Sand e as charadas

George Sand e as charadas
      A mesma progressão de interesse aconteceu com o delfim Luís XVI (1754 - 1793), futuro rei francês e esposo de Maria Antonieta. Acostumado a acompanhar com deleite as representações de charadas e peças rápidas em seus cômodos, o delfim resolveu criar um pequeno teatro no castelo onde vivia, para que as peças pudessem ser encenadas com mais esmero. A informação saiu na revista The Century (O Século), em fevereiro de 1883:
Luís XVI e as charadas

Luís XVI e as charadas
Luís XVI e as charadas
      Uma cartinha de um leitor de 11 anos de idade, publicada em maio de 1884 pelo períodico infanto-juvenil The Youth's Companion (O Companheiro da Juventude), revelava um curioso uso didático das charadas. O menino, de nome Edwin, informou que seria submetido a um exame escolar baseado em charadas e pinturas "vivas", no final daquele mês.
As charadas como recurso didático

As charadas como recurso didático
      Cerca de 10 anos depois, em janeiro de 1894, o periódico Young Folks' Circle (O Círculo da Juventude) comentava o modismo das charadas: "Novas palavras para charadas tornam-se populares todo ano, depois ficam familiares, depois obsoletas. Uma das palavras populares ultimamente tem sido Madagascar". E o artigo seguia explicando o processo de divisão da palavra em sílabas, além de indicar um nome (Horace Mann) para a prática do jogo.
Dicas de palavras para charadas

Dicas de palavras a serem usadas em charadas
      Todas as imagens seguintes foram escaneadas da revista The Century: a Popular Quarterly (O Século: uma Publicação Popular Trimestral). As primeiras referem-se a um artigo de outubro de 1895 no qual a escritora Maria Mitchell relatava sua convivência com a famosa família Herschel (John e William, este o descobridor do planeta Urano). John, o filho, costumava participar das brincadeiras domésticas que incluíam charadas, adivinhas e anedotas, apesar de já adulto.
Cientistas também gostam de charadas

Cientistas também gostam de charadas
Cientistas também gostam de charadas
      A esposa do príncipe austríaco Klemens Metternich-Winneburg, Pauline, era apreciada tanto pela vivacidade com que se exibia nas reuniões sociais, quanto pela liberdade de comportamento, que incomodava os padrões vigentes na sociedade francesa da época (início do século XIX). Seu marido foi o responsável pela negociação do casamento da austríaca Maria Luísa com o imperador francês Napoleão Bonaparte. Entre as habilidades sociais da esposa, o artigo mostrado abaixo incluía a representação de charadas.
A princesa Metternich e as charadas

 na revista 'The Century'
 na revista 'The Century'
      Um curioso artigo de tom feminista, publicado em outubro 1897 na The Century, "Um Empecilho às Diversões Sociais Noturnas", abordava o trabalho imposto à dona-de-casa nas ocasiões em que deveria receber visitas: a arrumação dos filhos e da casa, a preparação da comida, o trabalho de vestir as pesadas roupas femininas da época ¾ tarefas cuja antevisão muitas vezes gerava a desistência da idéia de convidar amigos para uma agradável noite de bate-papo. Um dos prazeres sociais prejudicados por essa desistência seria justamente a representação de charadas ("Venham e nos ajudem a representar charadas" era um dos convites típicos da época, segundo a articulista). A autora sonhava com o dia em que as pessoas poderiam se visitar sem que ninguém se sentisse obrigado a demoradas e custosas preparações.
Convites para jogar charadas

Convites para jogar charadas
      Em outubro de 1899, a The Century publicou anúncios de dois livros contendo somente charadas. O primeiro A Second Century of Charades (Uma Segunda Centena de Charadas), lançado em 1896, aproveitava-se do sucesso do primeiro livro da série, publicado em 1894. O terceiro e último sairia em 1904.
Livro "A Century of Charades"

O livro 'A Century of Charades'
Livro de charadas na revista 'The Century'
      O outro anúncio deixava claro que o modismo começava a incomodar muitas pessoas: "Embora seja verdade que o mercado tenha sido mais ou menos inundado de livros desse gênero, ultimamente, também é verdade que este volume particular incorpora tantas novas idéias e tantas diferenças no método costumeiro de escrever charadas que ele certamente receberá a atenção geral". O título era "Um Novo Livro de Charadas".
Outro livro de charadas

Outro livro de charadas
      A forma representada da charada manteve-se no gosto do público em parte devido às variações sofridas pelo passatempo. Uma delas gerou o popular jogo da mímica, no qual um ou mais atores têm a liberdade de passar dicas das mais diversas maneiras, sem ficarem restritos à apresentação seqüencial das sílabas e do conceito definido. Assim, frases, provérbios, citações, títulos de livros e nomes de pessoas também passaram a ser representados com freqüência.

      Essa brincadeira teve seu auge a partir da década de 30 do século XX, já conhecida como The Game (O Jogo) nos países de língua inglesa. A popularidade, que persistiu após a II Guerra Mundial, carreou simpatizantes ilustres, como a Rainha Elizabeth II, mas também gerou inimigos, como seu primeiro-ministro Winston Churchill e o escritor Ogden Nash, autor de um poema em dísticos cujo final afirmava:
Many enjoy it vastly,
I find it ghastly.

Tradução:

Muitos apreciam-no imensamente,
Eu o considero horripilante.
      Veja abaixo uma lista de publicações importantes que continham compilações de charadas:

      . Delights for the Ingenious, Londres, 1711.
      . A New Collection of Enigmas, Charades, Transpositions, &c, Londres, 1791.
      . A Choice Collection of Riddles, Charades, Rebuses, etc., Peter Puzzlewell, 1796.
      . The Masquerade, a Collection of New Enigmas, Logogriphs, Charades, Rebusses, Queries, and Transpositions, Dublin, 1797.
      . Le Sphinx, aux Oedipes Présens et à Venir, ou Recueil Choisi d'Énigmes, Charades et Logogriphes Modernes, par un Sorcier, Paris, 1803.
      . Mince Pies for Christmas: Consisting of Riddles, Charades, Rebuses, Transpositions and Queries, an Old Friend, Londres, 1805.
      . A New Collection of Enigmas, Charades, Transpositions, &c, George Canning, Londres, 1806.
      . The New Athenian Oracle; or Ladies Companion, Samuel Tizzard, Londres, 1806.
      . The London Riddler, Londres.
      . A New Collection of Enigmas, Charades, Transpositions, etc., 1810.
      . A Repository for Original Anecdotes - Bon-Mots - Jeu d'Esprits - Pieces of Poetry &c., Edward Wrey Whinfield, Inglaterra, 1813
      . Historical Charades, 1847.
      . Six Acting Charades, W.L.T.C.H. Skeet, 1850.
      . Acting Charades. or Deeds not Words, the Brothers Mayhew, Inglaterra, 1850.
      . Guess if You Can!, a Lady, Londres, 1851.
      . Recreations for Winter Evenings, Being a Selection from the Most Celebrated Round Games, Enigmas, Charades, Rebuses, J., Londres, 1854.
      . The Royal Riddler; A Collection of Enigmas, Charades, Riddles, Rebusses, Conundrums, Londres, 1855.
      . Boys Own Book Extended, Nova Iorque, 1855.
      . Merry's Book of Puzzles, Robert Merry, Nova Iorque, 1857.
      . Parlour Pastime for the Young, 1857.
      . The Sociable; or One Thousand and One Home Amusements, Nova Iorque, 1858.
      . Parlor Theatricals, Nova Iorque, 1859.
      . Aunt Sue's Budget of Puzzles, Nova Iorque, 1859.
      . The Puzzler, Being a collection of two hundred and thirty eight original charades, enigmas, rebuses, anagrams, conundrums, transpositions, &c, Londres, 1860.
      . Charades, Enigmas, and Riddles, collected by a Cantab, Londres, 1860.
      . Charades, Anne Bowman, Londres, 1862.
      . Beeton's Riddle Book, Samuel Orchart Beeton, Londres, 1865.
      . Beeton's Book of Acting Charades, Samuel Orchart Beeton, Londres, 1866.
      . Les Charades et les Homonymes, L. Mezieres, França, 1866.
      . The Art of Amusing, Frank Bellow, Nova Iorque, 1866.
      . Puzzledom, Willis P. Hazard, Filadélfia, 1866.
      . Parlour Pastimes: A Repertoire of Acting Charades, Fire-Side Games, Enigmas, Riddles, Etc., G. F. Pardon, Londres, 1868.
      . Book of Tableaus and Shadow Pantomimes, Nova Iorque, 1869.
      . Country-House Charades for Acting, Edmund C. Nugent, Londres, 1870.
      . Victorian Geographical and Biographical Charades, I. S. Hunter Young, Melbourne, 1870.
      . The Art of Amusing, Edinburgo, 1871.
      . Guess Me: A Curious Collection of Enigmas, Charades, Acting Charades, Double Acrostics, Anagrams, Etc., Frederick d'Arros Planche, Londres, 1872.
      . Homes Games for Old and Young, Mrs. Caroline L. Smith (Aunt Carrie), 1873.
      . Evening Amusements for Every One, Frederick d'Arros Planche, Philadelphia, 1873.
      . Charades and Responses, a Christmas Book, 1874.
      . Parlor Pastimes - or The Whole Art Of Amusing, Prof. Raymond, Nova Iorque, 1875.
      . Evening Amusements: Or, Merry Hours For Merry People, Henry T. Williams e S. Annie Frost, Nova Iorque, 1878.
      . Amateur Amusements, Professor Lorento, Nova Iorque, 1878.
      . Excursions Into Puzzledom. A Book of Charades, Acrostics, Enigmas, Conundrums, etc., Tom Hood e irmã, Londres, 1879.
      . Parlor Varieties, Emma E. Brewster, Boston, 1880.
      . Exhibition Days, Mary B. C. Slade, Boston. 1880.
      . Work and Play, Mary J. Jacques, Chicago, 1881.
      . One Thousand Riddles, Barbara Bee, Hartford, 1882.
      . The American Girl's Home Book of Work and Play, Estados Unidos, 1883.
      . Wit and Humor of the Age, Mark Twain, Robert. J. Burdette, Josh Billings, Alex Sweet, Eli Perkins e Melville D. Landon, Chicago, 1883.
      . Charades en Action pour Salon, Paul Bonhomme, França, 1885.
      . Evening Amusements and Book of Drawing-Room Plays, Henry Dalton, Londres.
      . Poems and Charades: With a Key and Answers in Verse, Mary C. Brown, Nova Iorque, 1888.
      . Tableaux Charades and Pantomimes, Filadélfia, 1889.
      . Comic Charades, Stanley Rogers, Londres, 1890.
      . Art, Society and Accomplishments, a Treasury of Artistic Homes, Social Life and Culture, 1891.
      . Everybody's Illustrated Book of Puzzles, Don Lemon, Londres, 1892.
      . A Century of Charades, William Bellamy, Estados Unidos, 1894.
      . Original Charades, L. B. R. Briggs, Nova Iorque, 1895.
      . The Boston Charades, Herbert Ingalls, Boston, 1895.
      . Open Sesame, One Hundred Answers in Rhyme to William Bellamy's Century of Charades, Harlan H. Ballard, Boston, 1896.
      . A Second Century of Charades, William Bellamy, Boston, 1896.
      . Sphinx-Lore, Charlotte Brewster Jordan, Nova Iorque, 1897.
      . The Columbian Prize Charades, Herbert Ingalls, Boston, 1896.
      . At the Sign of the Sphinx: a Book of Charades, Carolyn Wells, Nova Iorque, 1896.
      . Poems, Charades, Inscriptions, Papa Leão XIII, Nova Iorque, 1902.
      . Games, Puzzles, Charades, Recitations and Other Home Amusements, Henry Davenport Northrop, 1903.
      . A Third Century Of Charades, William Bellamy, Boston, 1904.
      . Education by Plays and Games, George Ellsworth Johnson, 1907.
      . More Charades, William Bellamy, Boston, 1909.


      Na próxima página, conheça exemplos de charadas publicadas nas revistas e livros ingleses e norte-americanos a partir de 1855.
Referências
British Word Puzzles (1700 - 1850), Will Shortz, "Word Ways", Ross Eckler, Vol. 6-7, Números 3-4, 1973
Early American Word Puzzles, Will Shortz, "Word Ways", Ross Eckler, Vol. 7, Números 3-4 e Vol. 8, Números 1-2, 1974-1975
Imagem da revista Atlantic Monthly, março de 1878, reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America
Imagens da revista The Century, a Popular Quarterly, fev. 1883, out. 1895,, out. 1896, out. 1897 e out. 1899, reproduzidas com a permissão do site do Projeto Making of America
Site da Encyclopaedia Britannica
The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984
The Puzzler's Paradise, Helene Hovanec, Paddington Press Ltd., Nova Iorque, 1978
The Youth's Companion, Perry Mason & Co, Boston, janeiro de 1894
What's Gnu? A History of the Crossword Puzzle, Michelle Arnot, Random House, Nova Iorque, 1981
Young Folks' Circle, Mast, Crowell & Kirkpatrick (Proprietors), Springfield, maio de 1884
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes