História das Palavras Cruzadas

Fatos curiosos e surpreendentes sobre as adivinhas, o primeiro jogo de palavras criado pelo ser humano.
 
O Que É, o Que É? Diverte, Instrui ... e Mata
As adivinhas no folclore, na arte e no amor
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  • A adivinha pode ser definida como um curto enigma proposto em prosa ou verso, contendo um ou mais elementos de despistamento no conteúdo e/ou na forma, que visam afastar ao máximo a possibilidade de sucesso do adivinhador.

  • Segundo o artigo da Encyclopaedia Britannica, "The point about riddles is that they are easy and unforgettable when you know, and almost impossible when you don't". Tradução: "A questão sobre as adivinhas é que elas são fáceis e inesquecíveis quando se sabe a solução, mas quase impossíveis quando essa não é conhecida". E nisso reside grande parte da graça desse jogo.

  • O sábio grego Aristóteles, que viveu no século IV a.C., teorizou sobre as adivinhas, atribuindo o fascínio exercido pelo passatempo ao uso inteligente da metáfora na pergunta, e à surpresa experimentada pelo desafiado quando ele afinal conhece a resposta. A pergunta costuma basear-se em semelhanças entre coisas, descrevendo um objeto como se fosse outro; nesse aspecto, a personificação (descrição de um objeto como se fosse uma pessoa) é um recurso muito utilizado.

    Eu tenho um menino com um casaco branco; quanto maior ele é, menos ele cresce. Resposta

  • Já a resposta, quanto mais ela frustre as expectativas do adivinhador, mais reforça nele o fato de ter aprendido algo interessante. E a solução, a partir desse momento, passa a lhe parecer evidente, óbvia, embora sequer lhe tenha vindo à mente quando estava buscando a resposta.

  • A associação das adivinhas com os assuntos religiosos, que marcou o passatempo em seu início, ainda pode ser encontrada na forma como são transmitidos os conhecimentos em várias seitas esotéricas. Seus textos contêm certas sentenças cujo sentido oculto deve ser decifrado pelos adeptos, para uma perfeita compreensão da mensagem.

  • Já a associação das adivinhas com a morte, presente na história de Édipo e da Esfinge, não foi feita gratuitamente naquela lenda. Por incrível que possa parecer, em várias culturas muitos seres humanos perderam ou ganharam a vida por causa de uma adivinha. Os Vedas, textos hindus escritos em sânscrito, relatam a prática corriqueira de submeter uma pessoa a um teste cruel: era-lhe proposta uma adivinha; se o desafiado não a resolvesse, perdia a vida. Há alguns séculos, na Estônia, concedia-se ao condenado à morte a oportunidade de escapar da sentença, caso conseguisse resolver uma adivinha.

  • Dois autores conhecidos aproveitaram esse costume radical em suas obras. O primeiro, Giaccomo Puccini (1858-1924), autor das óperas "Tosca" e "Madame Butterfly", deixou inacabada a ópera "Turandot", baseada na fábula dramática homônima escrita pelo também italiano Carlo Gozzi (1720-1806), o qual, por sua vez, inspirou-se na história original presente em texto apócrifo das "Mil e Uma Noites". Toda a trama centra-se em quatro adivinhas. A Princesa Turandot dedica sua vida a vingar-se do assassinato de uma ancestral por um príncipe. Tomada de ódio pelos homens, decide que todo príncipe que desejar esposá-la terá que responder corretamente a 3 adivinhas formuladas por ela, uma a uma, sem que tenha muito tempo para pensar. Se falhar em responder a uma sequer, será decapitado sem demora. Assim, pensa ela, nenhum homem jamais a possuirá. O Príncipe Calàf, apaixonado por Turandot, decide arriscar-se e sai-se bem na tarefa. As 3 adivinhas são:
  • O que nasce toda noite e morre a cada amanhecer? Resposta
  • O que treme vermelho e quente como uma chama, mas não é fogo? Resposta
  • O que é como gelo, mas arde? Resposta
  • Generoso, Calàf oferece à Princesa a oportunidade de livrar-se dele. Basta que descubra a resposta para uma adivinha, até o amanhecer do dia seguinte: qual é o nome real daquele que conseguiu conquistá-la? A Princesa obriga todos os habitantes de seu reino a ficarem acordados em busca da resposta. Desesperados, decidem torturar o pai e a escrava do pai de Calàf, para obrigá-los a reveler o nome. Liu, a escrava, apaixonada por Calàf, consegue tomar uma adaga do torturador e suicida-se, preferindo a morte a contar o segredo. Calàf repreende a Princesa pela crueldade, mas, num impulso, tira-lhe o véu, e os dois se beijam. A Princesa confessa sua paixão por Calàf que, também apaixonado, revela seu nome. Na última cena, aparecem os dois apaixonados ante o Imperador, e Turandot anuncia a solução da adivinha proposta por Calàf: Resposta

  • O segundo autor foi o britânico J. R. Tolkien, famoso pela epopéia fantástica "O Senhor dos Anéis". Em seu livro "Hobbit", Tolkien destina um capítulo ao duelo mortal de adivinhas entre o herói Bilbo e seu rival Gollum, disputa que acaba sendo vencida pelo herói. Intitulado "Riddles in the Dark" ("Adivinhas no Escuro"), traz, entre outras, estas adivinhas:
  • Uma caixa sem dobradiças, chave ou tampa,     
    Mas que possui um tesouro dourado no interior.
    Resposta


  • É algo que a tudo devora:         
       Pássaros, feras, árvores, flores.
      Corrói o ferro, estraga o aço;     
       Transforma rochas em pó;          
      Mata reis, arruína cidades         
              E derruba as mais altas montanhas.
    Resposta
  • Originalmente, as adivinhas eram propostas na forma de afirmações enigmáticas (descrições baseadas na aparência do ser ou objeto definido). As adivinhas em forma de perguntas são típicas da modernidade. Algumas formas, como "Qual é a diferença entre ...?", são tidas como exclusivas dos países ocidentais.

  • Existe um grande número de adivinhas que foram encontradas pelos estudiosos nos mais diversos e distantes países, apresentando variações apenas quanto à forma de proposição.

  • O rei inglês Henrique VIII (1491-1547), famoso por suas seis mulheres e por ter fundado a Igreja Anglicana, era um grande apreciador das adivinhas maliciosas de duplo sentido, muito populares naquela época. Outra personalidade real britânica, a Rainha Vitória, gostava muito desse passatempo, em sua forma menos "pesada". Conta-se que, uma vez, tentou achar uma solução durante quatro dias e, não a encontrando, resolveu consultar aquele a quem se atribuía a autoria da brincadeira, o Bispo de Salisbury. O religioso respondeu que jamais a tinha ouvido e que também não conseguira resolvê-la, ao pensar sobre ela. A rainha ficou sem a solução.

  • Em "Hamlet", a obra-prima de Shakespeare, a Cena I do Ato V, o último da peça, inicia com um diálogo entre dois coveiros, que logo se transforma num desafio de adivinhas. Eis uma delas: "Quem é que constrói mais solidamente do que o pedreiro, o carpinteiro e o construtor de navios?" A resposta.

  • Na obra "Alice no País das Maravilhas", o autor Lewis Carroll incluiu uma adivinha sem resposta: por que o corvo é como a escrivaninha? Após a publicação do livro, houve uma pressão popular para que ele revelasse a resposta. Sincero, Lewis reconheceu que não tivera nenhuma em mente, ao criar a adivinha. Mas, para satisfazer ao público, elaborou uma solução que só tem validade na língua inglesa, por ser baseada em trocadilho.

  • Miguel de Cervantes, autor de "Dom Quixote de La Mancha"; o dramaturgo Gil Vicente, fundador do Teatro português; e José Hérnandez, poeta argentino autor de "Martín Fierro" ¾ esses três importantes escritores também utilizaram adivinhas em suas obras.

  • No ano de 2001 foi oferecida no eBay, site norte-americano de leilões virtuais, uma partitura da composição The Riddle Song (A Canção da Adivinha), de subtítulo What is It? (O que é isso?). Seus autores eram Al Lewis, Al Hoffman e Murray Mencher. Datada de 1938, a partitura trazia a seguinte letra:
    Darling, you're a puzzle, I can't make you out,
    Can't make head or tail of what your feelings are about.
    You're so fond of riddles,
    I'm so fond of you.
    Speaking in your language, dear,
    I'll ask you one or two;
    
    What is it that sing without any voice,
    And jumps around just like a kangaroo?
    Give up? Give up?
    It's a heart full of love for you.
    
    What is it that burns without any flame
    And yet could light my way to Paradise?
    Give up? Give up?
    It's the lovelight that's in your eyes.
    
    Love is a riddle, but if you're smart
    You'll find the answer in the middle of your heart.
    
    What is it that should, that could if it would
    Make all my dreams of happiness come true?
    Give up? Give up?
    It's your lips saying "I Love you." 
    
  • No filme "A Vida é Bela", Oscar de 1998, o personagem interpretado por Roberto Benigni, Guido, é um mestre na arte das adivinhas.

  • No Brasil, as adivinhas fazem parte dos desafios dos cantadores de cordel. Elas são propostas em versos e devem ser respondidas da mesma forma, ao sabor do repente.

  • As adivinhas respondidas com trocadilhos, também chamadas conundrums, são típicas dos países de língua inglesa. Esse recurso ¾ o trocadilho ¾ também é comum nas palavras cruzadas das nações anglo-saxônicas.

  • Um dos truques utilizados nas adivinhas é ... não utilizar truque algum. A pessoa desafiada encontra-se tão certa de que existe um truque na pergunta, que se esquece de pensar no óbvio. Exemplo:

    Por que a galinha cruza a rua? Resposta

  • Ao contrário da maioria dos jogos de palavras, nas adivinhas o jogador não sente vergonha ou frustração por não conseguir resolvê-las. Todos partem do pressuposto de que essa é uma tarefa quase impossível, e que o prazer será extraído mais do conhecimento das respostas, proporcionado por quem fez as perguntas, do que da prova de ter a capacidade de encontrá-las sem ajuda.

  • Dois ótimos livros sobre adivinhas foram publicados no Brasil, nos últimos anos: "Adivinha o Que É", de Antônio Henrique Weitzel, Diadorim Editora Ltda., Minas Gerais, 1996; e "Duas Mil Adivinhas do Brasil", de Luís Henrique Correa, Nova Alexandria, 2000. Na Web, a revista virtual Jangada Brasil contém adivinhas folclóricas em todos os seus números mensais.

  • A palavra "adivinha", em outros idiomas: "indovinello", em italiano; "adivinanza", em espanhol; "riddle", em inglês; "devinette", em francês; "rätsel", em alemão.

      Na próxima página, veja imagens escaneadas de adivinhas publicadas nas revistas e tablóides infanto-juvenis norte-americanos, de 1862 a 1907.
Referências
"Adivinha o Que É", Antônio Henrique Weitzel, Diadorim Editora Ltda., Minas Gerais, 1996
Alice's Adventures in Wonderland - Chapter 7 (página atualmente inativa)
"Enciclopédia Mirador Internacional", Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda, São Paulo, 1997
Hamlet, Shakespeare, tradução de Carlos Alberto Nunes, Ediouro, Rio de Janeiro, 1997
Hobbit, Act II, Scene 2
Site da Encyclopaedia Britannica
Site do eBay
The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984
Tolkien Hobbit Quotes (site já extinto)
Turandot: Synopsis
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes