História das Palavras Cruzadas

A utilização dos acrósticos durante a Guerra de Secessão dos Estados Unidos.

 

A Guerra dos Acrósticos
Exercícios de xingamento poético
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       Na Inglaterra, país onde surgiram os jogos do acróstico simples e do acróstico duplo, o contexto literário e político da época permitia o divertimento e a experimentação. Enquanto isso, nos Estados Unidos ocorria o mais violento conflito interno da história do país: a Guerra de Secessão, que dividiu a nação entre Norte (os ianques) e Sul (os confederados), de 1861 a 1865, motivada pela abolição da escravatura.

      A guerra não foi travada apenas nos campos de batalha. Também nos periódicos daquele tempo, cada lado expunha suas razões e execrava as razões alheias, muitas vezes valendo-se de poemas e acrósticos para expressar o pensamento de um modo mais artístico e incisivo. O primeiro exemplo, "Um Retrato em Acróstico", pertence à edição de 17 de agosto de 1861 do jornal humorístico Vanity Fair (Feira de Vaidades), editado em Nova Iorque entre 1860 e 1883:
O primeiro xingamento

Vanity Fair
Acróstico contra os secessionistas
      O poema não passa de uma enumeração de xingamentos direcionados aos sulistas, formando o acróstico Secessionists (Secessionistas). O que se faz cá, se faz lá. O poema seguinte segue o mesmo tom. Foi publicado em maio de 1863 no periódico sulista Old Guard (Velha Sentinela), que circulou apenas entre 1863 e 1870. No artigo que o precede, o colunista atribui aos nortistas a intenção de "exterminar a raça branca no Sul" e de "pilhar e incendiar suas vilas e cidades". Mais adiante, continua: "Mas saber que alguém deve sacrificar sua vida para libertar os negros e escravizar a raça branca deve encher a alma de um homem orgulhoso de uma insaciável indignação e horror":
Em defesa da "raça branca"

Old Guard - 1
Old Guard - 2
Acróstico contra os nortistas
      O acróstico forma a expressão The Star And Stripes (A Estrela e as Listras), pela qual é conhecida a bandeira norte-americana.

      E lá vem mais xingamento. Em fevereiro de 1863, o periódico Southern Literary Messenger (Mensageiro Literário do Sul) ofereceu este acróstico, "dedicado pelas senhoras de New Orleans ao Major-General Butler", ironicamente designado como o "amigo particular" delas:
Das damas, com ... carinho?

Acróstico contra o major Butler - 1
Acróstico contra o major Butler - 2
      Pela virulência, vale a pena traduzir a "obra":
                 Brutal e vulgar, um covarde e velhaco,
                 Conhecido por nenhuma ação nobre ou brava;
                 Bestial por instinto, um bêbado e ébrio;
                 Feio e venenoso, na Humanidade uma nódoa;
                 Ladrão, mentiroso e salafrário ao mais alto grau;
                 Deixe o Reino dos Ianques gabar-se de homens como tu; 
                 Toda mulher e toda criança irá, por muitas e muitas eras,
                 Lembrar-se de ti, monstro, tu, o mais vil da escória.
      A Guerra de Secessão também viria a produzir um documento comovente, o poema autobiográfico de autoria de William Anderson Ellis, capitão que faleceu em maio de 1864 após ser ferido na Batalha de Drewry's Bluff. O acróstico de natureza profética, que pode ser apreciado nesta página, contém a palavra Farewell (Adeus) na primeira estrofe e o nome completo do militar nas estrofes seguintes. Provavelmente, foi composto à época de sua convocação.

      Vale ainda ressaltar duas obras publicadas naquela década de 60. A primeira, Original Acrostics on some of the Southern states, Confederate generals, and various other persons and things (Acrósticos Originais sobre alguns dos estados sulistas, generais confederados e várias outras pessoas e coisas), de Robert Blackwell, saiu em 1869 e trazia jogos de acrósticos temáticos em suas 100 páginas. Robert havia publicado, em 1861, o livro Original Acrostics on all the states and presidents of the United States, and various other subjects, religious, political, and personal (Acrósticos Originais sobre todos os estados e presidentes dos Estados Unidos, e vários outros temas, religiosos, políticos e pessoais), no qual esse curioso acróstico introduzia o texto:
                       R hyming is my occupation
                       O ft times I write on subjects new
                       B y this I rise to observation
                       E xpecting pay for what I do 
                       R egarding men of higher station
                       T hey read my book, and pay me too.
Tradução literal
                      R imar é a minha ocupação
                      O meu tema freqüente são as novidades
                      B em sei que me exponho, desse modo
                      E sperando um pagamento pelo que faço 
                      R essaltando os homens de alto posto
                      T ambém esses me pagarão, por lerem meu livro.
      Thomas Picton (1822 - 1891), um norte-americano que trabalhou como soldado mercenário, jornalista, dramaturgo e poeta, foi autor do livro Acrostics from Across the Atlantic and Other Poems Humorous and Sentimental by a Gothamite (Acrósticos do Outro Lado do Atlântico e Outros Poemas Humorísticos e Sentimentais, por um Nova-Iorquino), lançado em 1869. Como soldado, Thomas serviu no exército francês, participou de uma fracassada invasão a Cuba e de uma bem-sucedida invasão à Nicarágua, além de organizar uma companhia que lutou na Guerra de Secessão norte-americana. A essas características, pode-se acrescentar a de "mulherengo", já que os acrósticos são destinados, em sua maioria, a louvar as qualidades de uma boa quantidade de beldades jovens. O poema A Voice from California (Uma Voz da California) celebra a proibição da escravatura, firmada em lei daquele Estado.

      Na próxima página, acompanhe a transformação do jogo do acróstico duplo num modismo, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos.
Referências
Imagem da Old Guard, maio de 1863, reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America
Imagem da Southern Literary Messenger reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America
Imagem da Vanity Fair, 17/8/1861, reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America
Site da livraria virtual Advanced Books Exchange
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes