História das Palavras Cruzadas

A falsa profecia sibilina sobre o advento do Cristianismo, baseada no acróstico do peixe.
 

O Mais Enganoso de Todos os Acrósticos
A maior fraude religiosa de todos os tempos
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      Se o acróstico do peixe foi o mais famoso de todos, também ficou associado à maior fraude perpretada com o uso desse recurso literário. A história começa bem antes da época de Cristo, cerca de 200 a.C., quando se tornara comum a prática de forjar textos religiosos. O principal objetivo dessas contrafações era, através de supostas previsões "confirmadas" pelos fatos, dar autoridade a determinados grupos religiosos que pretendiam se impor à população. O recurso também foi usado com o objetivo de, utilizando-se de fontes pretensamente divinas, combater a ocupação grega ou romana do território onde essas "predições" eram produzidas. Foram tantos os textos criados, dessa época até os primeiros séculos da Era Cristã, que a disciplina da História criou uma área específica para o estudo dos pseudo-epígrafos, denominação técnica das obras forjadas com semelhante propósito.

      Embora a prática tenha provavelmente sido iniciada por judeus, como uma forma de dar autoridade a textos do "Antigo Testamento", a mais famosa fraude associada aos pseudo-epígrafos foi uma criação cristã inserida nos "Oráculos Sibilinos", uma coleção de profecias atribuídas às sibilas, profetisas gregas pagãs que davam consultas em templos e redigiam as profecias em forma de acróstico. Esses textos centravam-se na confirmação da doutrina judaica do "Antigo Testamento" e da doutrina cristã do "Novo Testamento".

      Os "Oráculos Sibilinos" compõem-se de 15 livros escritos em grego, em forma versificada. Cerca de 12 livros foram preservados, num total de 2400 versos, entre eles os que trazem o acróstico do peixe. Apesar de serem originários de uma fonte pagã, os textos que divulgam as doutrinas judaica (a partir do Livro III) e cristã contêm condenações ao paganismo, crença dominante naquela época.
Capa da tradução inglesa dos "Oráculos Sibilinos"

O livro 'The Sibylline Oracles'
      O acróstico do peixe aparece a partir do verso 217 do livro VIII, volume composto de 500 versos alexandrinos. Lê-se, em grego: Iesous Christos Theou Uios Soter (Stauros), traduzido por "Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador (Cruz)". As iniciais compõem a palavra grega para "peixe", ichthus, símbolo pagão da fecundidade adotado pelos cristãos a partir do século I. A palavra ichthus chegou a ser empregada por eminentes autores cristãos dos primeiros séculos para se referirem ao próprio Cristo.

      Os "Oráculos Sibilinos" foram utilizados abertamente por autores importantes, durante vários séculos, como provas da origem divina da doutrina cristã e dos fatos expostos na Bíblia. Se as sibilas haviam previsto a vinda de Cristo antes que ela se realizasse, como indicava a "datação" do texto, isso faria dessa vinda um fenômeno produzido por forças sobrenaturais, divinas. Eis alguns dos autores mais conhecidos que avalizaram a "profecia":

  • Flávio Josefo (37 - 100), historiador romano, autor de várias obras sobre a história dos judeus.

  • Justino (c. 100 - c. 165), apologista martirizado em Roma. Em sua "Apologia", mencionou a proibição dos "Oráculos" pelos romanos como uma tentativa de evitar a difusão do Cristianismo entre o povo, atribuindo uma origem divina àqueles textos.

  • Teófilo de Antioquia (? - 180), um dos Padres da Igreja. Reconheceu a capacidade profética das sibilas.

  • Clemente de Alexandria (c. 150 - c. 215), apologista cristão. Atribuiu às sibilas a mesma fonte de inspiração responsável pelas revelações do "Antigo Testamento".

  • Lacâncio (c. 260 - c. 325), um dos Padres da Igreja, apologista cristão. Pagão convertido ao Cristianismo por volta do ano 300, tratou, em suas "Instituições Divinas", dedicadas ao imperador Constantino, dos argumentos e provas da existência e dos poderes de Jesus Cristo, baseando-se fartamente nos textos dos "Oráculos Sibilinos" que relatam suas curas milagrosas, a força de sua palavra e o domínio sobre os elementos: "Ele andará sobre as ondas, Ele libertará os homens das doenças. Ele levantará os mortos e eliminará muitas dores; e do pão de uma sacola satisfará os homens". Lacâncio utilizou nada menos que 50 passagens dos "Oráculos" como evidências da validade da doutrina cristã.

  • O bispo Eusébio de Cesaréia (c. 265 - 340), historiador da Igreja. Defendeu a origem pré-cristã do acróstico.

  • Constantino I, imperador romano (306 - 337), convertido ao Cristianismo em 313. Em sua "Oração ao Clero" trata do acróstico do peixe, recebido pelo "poder da inspiração divina" de que seria dotada a sibila.

  • Santo Agostinho (350 - 430), o Doutor da Graça. Confirmou em seus textos a validade das profecias das sibilas da Eritréia e citou o acróstico do peixe como uma das provas.

  • Santo Tomás de Aquino (1225 - 1274), Doutor da Igreja. Utilizou as afirmações sibilinas relativas à Trindade, à Encarnação da Palavra e à Ressurreição de Cristo como provas da existência da capacidade profética entre os pagãos.
      Alguns desses autores mencionaram a suspeita de fraude que rondava os "Oráculos Sibilinos", especialmente Lacâncio, Eusébio e Santo Agostinho. Mas ela foi abordada apenas para que apresentassem argumentos em defesa daqueles textos.

      É difícil menosprezar a importância histórica dos "Oráculos" e da defesa de suas predições feita pelos autores cristãos, para a difusão da nova doutrina entre os pagãos. Alguns fatores explicam essa importância:

  • A predominância das práticas pagãs entre a população.

  • A autoridade longamente atribuída às profecias das sibilas.
    Conta Suetônio (c. 69 - 122), na obra "O Divino Augusto", que o imperador romano mandou que trouxessem à sua presença e queimassem todos os livros proféticos, preservando somente os "Oráculos Sibilinos". Outro livro famoso naquele tempo, os "Livros Sibilinos", de origem ainda mais remota, era consultado com freqüência por imperadores e nobres antes da tomada de decisões importantes.


  • A natural dificuldade de impor um novo credo à população, mais disposta a aceitar fontes de conhecimento já estabelecidas do que novas doutrinas.

  • A origem externa de confirmação da doutrina cristã representada pelas profecias, aparentemente desprovidas do caráter de propaganda que poderia ser atribuído às palavras e aos textos sagrados dos cristãos.
      Durante o primeiro século, o costume de recorrer aos "Oráculos" para validar a sua doutrina fez com que os cristãos fossem conhecidos como "sibilistas", termo também empregado em obras por Celso, filósofo platônico do século II, e Orígenes (c. 185 - c. 255), apologista cristão. Calcula-se que os "Oráculos" tenham exercido uma influência positiva equivalente à do "Novo Testamento", nos primeiros séculos da Igreja, para a aceitação da nova doutrina.

      Apesar da importância histórica adquirida pela obra e de todos os testemunhos importantes a seu favor, tudo não passou de uma fraude conscientemente elaborada. Segundo o verbete da "Enciclopédia Britânica":
In the Oracles the sibyl proved her reliability by first "predicting" events that had actually recently occurred; she then predicted future events and set forth doctrines peculiar to Hellenistic Judaism or Christianity.
Tradução
Nos "Oráculos", a sibila provava sua confiabilidade primeiro "predizendo" eventos que na realidade já haviam acontecido recentemente; depois ela predizia eventos futuros e expunha doutrinas próprias do Judaísmo e do Cristianismo helenístico.
      Entendida dentro do contexto da época, a prática aética torna-se, se não aceitável, ao menos compreensível. O fim último era persuadir os pagãos a adotar a doutrina cristã. E o meio escolhido era uma prática corrente na época. Segundo os historiadores, a inserção de textos judaicos nos "Oráculos Sibilinos" teve início por volta de 140 a.C., na composição do Livro III. O Livro VIII, no qual se encontra o acróstico do peixe, foi escrito em meados do século II ou no início do século III. Portanto, na época da criação da falsa profecia do acróstico esse tipo de engodo já era praticado havia três séculos, sempre com bons resultados para os fraudadores.

      À medida que o Cristianismo se impôs, vindo mesmo a tornar-se religião de Estado, o apelo a fontes pagãs deixou de ser necessário ou mesmo conveniente, o que levou a um gradativo abandono da citação dessas fontes. A própria Igreja Católica reconhece, atualmente, que os textos foram criados após os acontecimentos "previstos" e que o acróstico do peixe é uma fraude, sem nenhuma relação com as sibilas. Alguns sites católicos trazem a atual visão crítica da Igreja sobre os "Oráculos Sibilinos", tão importantes em seus primórdios.

      Na próxima página, conheça várias curiosidades sobre a evolução dos acrósticos até o início do segundo milênio.
Referências
Artigo Acrostic, da "Catholic Encyclopedia"
Artigo Pseudoepigrapha, da "Believe Religious Information Source"
Artigo Sibylline Oracles, da "Catholic Encyclopedia"
Benét's Reader's Encyclopedia, Quarta Edição, HarperCollins Publishers, Nova Iorque, 1998
"Grande Enciclopédia Delta Larousse", Editora Delta S.A., Rio de Janeiro, 1973
Site da Encyclopaedia Britannica
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes