| História das Palavras Cruzadas |
| Os primeiros livros de jogos de acrósticos e o modismo dos acrósticos na Literatura. |
|
A Filha do Clérigo, o Prisioneiro e o Cego
As mil e uma utilidades do acróstico ¾¾¾¾¾¾ |
| A criação do jogo mostrado na página anterior, em 1762, nada mais foi do que uma conseqüência da difusão e da popularidade do acróstico, que levou alguns de seus apreciadores a buscar novidades. E os anos seguintes viriam reforçar essa fama. A próxima observação, feita num artigo sobre a história dos acrósticos publicado em julho de 1856 no periódico norte-americano Southern Literary Messenger (Mensageiro Literário do Sul), fala por si: |
O modismo dos acrósticos
|
| "Esse ano, 1768, parece ter sido marcado por uma extrema paixão por 'acrósticos' ..." O artigo reproduz vários deles, compostos naquele ano, entre os quais o seguinte, um poema de amor dedicado a Lucy Cocke: |
Acróstico para Lucy Cocke
|
| A Guerra da Independência norte-americana (1775 - 1783) produziu um acróstico histórico em honra do major-general Joseph Warren, que morreu no comando das tropas norte-americanas durante a batalha de Bunker Hill, a primeira daquela guerra, travada em 17 de junho de 1775 nas proximidades da cidade de Boston. Entre ingleses e americanos, 1450 soldados foram mortos ou feridos. A imagem abaixo foi escaneada da revista The Living Age, edição de 20 de julho de 1850: |
Acróstico sobre a batalha de Bunker Hill
|
|
Ao final da Guerra, vários acrósticos foram compostos para homenagear especialmente George Washington (1732-1799), herói do conflito e primeiro presidente do país. Cinco deles apareceram entre 7 de janeiro de 1777 e 14 de setembro de 1789. O original de um curioso acróstico homenageando Washington, composto pelo reverendo Elhanan Winchester ainda no século XVIII, foi negociado no site do eBay em setembro de 2001. A imagem escaneada e o texto podem ser apreciados aqui, graças à permissão dada pelo vendedor.
Assim como viria a ocorrer com outros jogos de palavras, as revistas e os periódicos se constituíram no principal meio de divulgação do jogo do acróstico, a partir do século XVIII. Nos Estados Unidos, uma das primeiras revistas a publicá-lo, em 1784, foi The Gentleman and Lady's Town and Country Magazine (A Revista do Homem e da Mulher da Cidade e do Campo), de subtítulo Repository of instruction and entertainment (Repositório de instrução e entretenimento). O jogo apareceu com a denominação de acrostic rebus (rébus em acróstico): |
A thing whereon all Princes lie,
And as we all express a sigh,
What man into the world brings in,
An Indian weed whose leaf is thin,
A wood by Kings esteemed much,
The part of speech when naming such:
These initials join'd declare
A town where friendly people are.
Tradução:
Uma coisa na qual todos os príncipes se deitam
E enquanto todos expressamos um suspiro,
O que o homem traz para o mundo.
Uma erva indiana cuja folha é fina;
Uma madeira muito estimada pelos reis
A parte da fala que a nomeia;
Essas iniciais, juntas, revelam
Uma cidade onde existem pessoas amáveis.
Resposta:
B ED
O H
S IN
T OBACCO
O AK
N OUN
|
|
As respostas são "cama", "oh!", "pecado", "tabaco", "carvalho" e "substantivo". Publicada em Boston, a revista saiu apenas em 1784 e 1785. Vale lembrar que as revistas inglesas, entre elas a London Magazine (Revista de Londres), onde foi publicado o primeiro jogo do acróstico, circulavam em boa quantidade nos Estados Unidos, cuja produção jornalística e literária tivera início somente nas primeiras décadas daquele século.
O ano de 1816 marcou uma singela homenagem de uma detenta da Prisão Estadual de Nova Iorque ao Reverendo John Stanford (1754 - 1834), que serviu como capelão do presídio entre 1812 e 1818, tornando-se muito popular entre os internos. O poema Acrostic On the Reverend John Stanford (Acróstico sobre o Reverendo John Stanford) tem como indicação da autora apenas as iniciais P ... E, J ... A. A prova de que o modismo do acróstico permanecia no século XIX é dada por uma passagem do romance Emma (1815), escrito pela inglesa Jane Austen (1775 - 1817). No capítulo 43, Emma e outros personagens conversam durante um passeio. O tema são os jogos de palavras. A senhora Elton afirma: I had an acrostic once sent to me upon my own name, which I was not at all pleased with. I knew who it came from. An abominable puppy! ¾ You know who I mean (nodding to her husband). Tradução: "Uma vez, recebi um acróstico feito com o meu nome, com o qual não fiquei nem um pouco satisfeita. Sabia de onde vinha. Um frangote abominável! ¾ Você sabe a quem me refiro (fazendo um sinal com a cabeça para o marido)." O trecho parece mostrar que era comum o uso do acróstico em tentativas de conquista amorosa. Também nesse contexto se enquadra a famosa troca de acrósticos entre o escritor Alfred di Musset (1810 - 1857) e George Sand (1804 - 1876), na realidade a romancista francesa Armandine Lucie Aurore Dupin. Famosa e rara, porque ambos utilizam a primeira palavra de cada verso, em vez de somente a primeira letra, para compor a mensagem amorosa: |
A pergunta de Musset:
QUAND je met à vos pieds un éternel hommage
VOULEZ-vous qu'un instant je change de visage ?
VOUS avez capturé les sentiments d'un coeur
QUE pour vous adorer forma le créateur.
JE vous chéris, amour, et ma plume en délire
COUCHE sur le papier ce que je n'ose dire.
AVEC soin, de mes vers lisez les premiers mots
VOUS saurez quel remède apporter à mes maux.
A resposta de George Sand:
CETTE insigne faveur que votre coeur réclame
NUIT à ma renommée et répugne à mon âme.
|
|
Tradução da pergunta: "Quando queres que me deite contigo?" A resposta: "Esta noite". A troca poética e amorosa é datada provavelmente de 1833.
Dez anos antes, um soneto-acróstico de autoria anônima comemorava o aniversário da instalação do Congresso de Portugal, em 26 de janeiro de 1823. |
Soneto-acróstico português
|
|
Nas primeiras décadas do século XIX começaram a ser editados livros com jogos de acrósticos. Enigmas, Historical and Geographical (Enigmas Históricos e Geográficos) contém talvez o primeiro emprego desses jogos num contexto didático. Lançado em 1834, tinha como público-alvo as crianças. Um detalhe revela a dominância masculina que caracterizava a época: a autora é mencionada apenas como "A Filha de Um Clérigo". Na área literária, o acróstico permanecia em voga. Edgar Allan Poe, escritor norte-americano que se tornaria célebre como o criador do conto policial e autor do poema "O Corvo", compôs em 1846 um acróstico original. Trata-se de uma criativa declaração de amor a Frances Sargent Osgood, na qual esse nome é formado a partir da primeira letra do primeiro verso ¾ não no sentido vertical, mas em diagonal. O acróstico foi destacado e as letras iniciais transformadas em minúsculas (o que não ocorre nos versos originais) para que se perceba mais facilmente essa disposição: |
A VALENTINE.
For her this rhyme is penned, whose luminous eyes,
bRightly expressive as the twins of Loeda,
shAll find her own sweet name, that, nestling lies
UpoN the page, enwrapped from every reader.
searCh narrowly the lines! -- they hold a treasure
divinE -- a talisman -- an amulet
that muSt be worn _at heart_. Search well the measure --
the wordS -- the syllables! Do not forget
the triviAlest point, or you may lose your labor!
and yet theRe is in this no Gordian knot
which one miGht not undo without a sabre,
if one could mErely comprehend the plot.
enwritten upoN the leaf where now are peering
eyes scintillaTing soul, there lie _perdus_
three eloquent wOrds oft uttered in the hearing
of poets, by poetS -- as the name is a poet's, too.
its letters, althouGh naturally lying
like the knight PintO -- Mendez Ferdinando --
still form a synonym fOr Truth -- Cease trying!
you will not read the riDdle, though you do the best _you_ can do.
|
| O poema foi publicado em março de 1849 na revista literária Sartain's Union Magazine of Literature and Art. É de 1846 este curioso emprego do acróstico, feito por um prisioneiro que cumpria pena por roubo na penitenciária estadual de Massachusetts e que passava o tempo ocioso criando textos em prosa e poesia. A imagem foi escaneada da revista Littell's Living Age (Tempo Vivo, de Littell), edição de 6 de março de 1847. Massachusetts State Prison significa "Prisão Estadual de Massachusetts": |
Acróstico de presidiário
|
| Em 1855 foi lançado o livro A Century of Acrostics on the most eminent names in Literature, Science, and Art, down to the present time; chronologically arranged (Um Século de Acrósticos sobre os mais eminentes nomes na Literatura, Ciência e Arte, até o presente; cronologicamente organizados). Na seguinte resenha escrita na revista The Living Age em 29 de dezembro de 1855, o autor do artigo chegava a cogitar se aquela seria a primeira obra totalmente centrada nos acrósticos, mas o já mencionado livro de John Davies, Hymnes of Astraea, de 1599, tem a primazia dessa inovação: |
O livro "A Century of Acrostics"
|
|
Os acrósticos do livro abrangiam desde Homero até os literatos daquela época e eram seguidos de informações adicionais sobre cada autor. Observe que o escritor alegou ter composto os poemas para "aliviar as muitas horas desocupadas geradas pela maior das aflições, a privação da vista". O acróstico que serve de exemplo homenageia o romancista inglês Charles Dickens.
Ainda nessa década de 50, registrou-se uma importante evolução do acróstico, que iria popularizá-lo de vez como um jogo e se tornar o ponto de partida para um novo tipo de passatempo, fundamental na história das palavras cruzadas. Na próxima página, conheça o jogo do acróstico duplo. |
| Referências |
|
Benét's Reader's Encyclopedia, Quarta Edição, HarperCollins Publishers, Nova Iorque, 1998 Dictionary of Phrase and Fable, E. Cobham Brewer, 2000 Etext of the Works of Edgar Allan Poe, Project Gutenberg, 2000 Imagem da Southern Literary Messenger reproduzida com a permissão do site do Projeto Making of America Imagens da Littell's Living Age reproduzidas com a permissão do site do Projeto Making of America Site da Biblioteca do Congresso Norte-Americano Texto on-line de Emma The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984 The Puzzler's Paradise, Helene Hovanec, Paddington Press Ltd., Nova Iorque, 1978 |
| ¾¾¾¾¾¾¾¾¾¾¾¾¾¾¾¾¾¾ |
|
Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice Geral | Ancestrais | Os Acrósticos
Autor: Sérgio Barcellos Ximenes
|