História das Palavras Cruzadas

As imagens inéditas da primeira apresentação do jogo do acróstico duplo numa publicação importante, em 1856.
 
Imagens de uma Apresentação Histórica
Nascido "charada de acróstico", batizado "acróstico duplo"
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      A visualização do original das páginas do Illustrated London News (Notícias Ilustradas de Londres) está um pouco prejudicada devido à impressão falha. O jogo foi apresentado na edição de 30 de agosto de 1856, página 233. O título da matéria era "Acrostic-Charades" (Charadas de Acróstico). A epígrafe escolhida, "Lisandra decifra enigmas muito bem", baseava-se em peça de Shakespeare ¾ assim como a do livro Charades, Enigmas, and Riddles, que cunhou a expressão double acrostic (acróstico duplo), pela qual o passatempo passou a ser conhecido a partir da década de 60 daquele século.

      Atualmente é muito difícil encontrar uma cópia dessa edição do Illustrated, tanto devido ao tempo transcorrido quanto a uma circunstância editorial: o passatempo saiu no Fine Art Supplement (Suplemento da Arte de Alta Qualidade), e os suplementos do periódico geralmente não são vendidos com a edição normal.
O suplemento de arte do "Illustrated"

O suplemento de arte do 'Illustrated'
      Escreveu o Reverendo Edward Bradley (Cuthbert Bede): "Essas novas e engenhosas adivinhas foram introduzidas recentemente e estão proporcionando muito divertimento. A introdução delas aqui, acreditamos, será aceita por nossos leitores, muitos dos quais desejosos de exercitar sua capacidade inventiva na composição ou solução dessas agradáveis novidades. Aos jovens, especialmente, elas podem se tornar um veículo muito instrutivo, e para todos devem proporcionar um divertimento racional e inofensivo".

      A seguir, Cuthbert explicou o processo de criação do passatempo, começando pela escolha das palavras a serem usadas como acrósticos. As regras básicas eram duas: as duas palavras deveriam ter o mesmo número de letras e apresentar alguma relação temática, exemplificada no artigo por "um general e sua vitória", "um autor e sua obra", "um potentado e seu palácio", "um inventor e sua invenção" e "um lugar e sua celebridade".

      O próximo passo seria a escolha das palavras horizontais, cada uma delas tendo início numa das letras do primeiro acróstico e findando numa das letras do segundo acróstico. Essas palavras deveriam ser definidas "à moda das charadas, em uma linha de prosa ou verso (se mais de uma linha for usada, isso deve ficar bem claro)". As definições formariam um bloco de linhas que seria intitulado The Words (As Palavras) ou simplesmente separado do segundo bloco por um espaço. O segundo bloco explicaria o significado dos acrósticos, "tão enigmaticamente quanto possível".

      A associação do novo passatempo com as charadas ficava nítida pelo próprio título, pelas explicações de Cuthbert e pela noção de whole (todo), usada por ele ao se referir aos acrósticos definidos no segundo bloco. Nas charadas, essa palavra remete ao conceito formado pelas sílabas definidas nos versos.
A apresentação do jogo

Introdução do jogo do acróstico duplo - 1
Introdução do jogo do acróstico duplo - 2
      A segunda surpresa presente no texto original de apresentação do jogo do acróstico duplo no Illustrated London News fica por conta do primeiro passatempo divulgado por Cuthbert Bede (a primeira surpresa, como se sabe, foi a data do artigo). Tanto Henry Dudeney, em 300 Best Word Puzzles (Os 300 Melhores Jogos de Palavras), quanto Roger Millington, em The Strange World of the Crossword (O Estranho Mundo das Palavras Cruzadas), mostraram este jogo como sendo o primeiro divulgado por Cuthbert. Veja abaixo qual foi de fato o primeiro exemplo dado pelo escritor inglês.
O primeiro exemplo

O primeiro exemplo
      Os acrósticos formados eram Victoria Regia (vitória-régia, a planta aquática) e Crystal Palace (Palácio de Cristal, famoso monumento londrino). Cuthbert definiu-os como "A maravilha do século ¾ um espetáculo de curiosidades projetado a partir de uma folha do livro da Natureza. Se você adivinhar minhas duas palavras, então saberá como um deve sua existência ao outro".

      Aproveitando a oportunidade, Cuthbert explicou a relação entre os acrósticos, contando a história da descoberta da vitória-régia pelos ingleses e a sua influência na construção do Palácio de Cristal. Em 1837 (portanto, havia apenas 19 anos), Sir Robert Schemburgh encontrara um exemplar dessa "rainha das ninféias" num rio inexplorado da Guiana Inglesa. Quando os desenhos da nova planta foram exibidos na Grã-Bretanha, e as sementes levadas para aquele país não germinaram, os britânicos pensaram que o vegetal era na verdade uma "ficção artística de um viajante imaginativo". Explica-se: a vitória-régia chega a ter 2 m de diâmetro; crescendo na água em forma de bandeja, pode sustentar um homem em seu interior; e sua flor chega a 40 cm de diâmetro.

      Novas tentativas foram feitas com outras sementes até que, em 9 de novembro de 1849, a vitória-régia finalmente floresceu na Inglaterra. Seis dias depois, o Illustrated London News tornava-se o primeiro jornal a publicar uma ilustração da planta. A Rainha Vitória (em cuja honra a nova espécie foi batizada) e o príncipe consorte Alberto receberam uma folha e uma flor do vegetal; decidiu-se, então, construir um lugar especial para apresentá-lo ao público, em Chatsworth. Num ato de ousadia e criatividade, Joseph Paxton, o responsável pela obra, projetou uma edificação baseada na própria estrutura da vitória-régia, que ele considerava apropriada para a finalidade.

      Sete meses depois, os ingleses enfrentavam um impasse. Um comitê formado para escolher o projeto do edifício para a Grande Exibição, programada para 1851, rejeitara os 273 trabalhos apresentados e tivera o próprio projeto rejeitado pela população. Joseph Paxton entrou em cena e sugeriu a adoção da mesma estrutura da construção destinada à vitória-régia. Em 6 de julho de 1850, seu projeto arquitetônico de um palácio de ferro e vidro apareceu nas páginas do Illustrated London News, ganhando a simpatia dos ingleses. O gigantesco Palácio de Cristal ficou pronto para a abertura da Grande Exibição, em 1º de maio de 1851, recebendo cerca de um milhão de pessoas por mês durante os seis primeiros meses da Exibição.
A história da vitória-régia

A história da vitória-régia
      A seguir, o artigo de Cuthbert Bede no Illustrated London News ensinava como escolher as palavras que comporiam as linhas horizontais. A resposta de número 11 era "Gama", de "Vasco de Gama", e vinha acompanhada do intrigante comentário "o qual tem a reputação (agora destruída por Mr. Timbs em 'Coisas que Poucos Conhecem') de ter sido o primeiro a dobrar o Cabo (das Tormentas)". Esse livro, uma espécie de almanaque de curiosidades lançado em 1856, vendeu 23.000 exemplares e teve uma seqüência lançada em 1859. Esta página da Web reproduz um artigo de Wilkie Collins sobre a obra, publicado em 2 de janeiro de 1858 no periódico semanal Household Words (Conversa Doméstica), dirigido pelo romancista inglês Charles Dickens. A História, pelo visto, ainda desconhece as alegações de John Timbs.
A técnica de criação

Dicas de criação
                                  V engean C (e)
                                  I ndust  R (y)
                                  C  ount  Y
                                  T  ime   S
                                  O utcas  T
                                  R  oxan  A
                                  I   dy   L
                                  A   s    P
                                  R  egin  A
                                  E   e    L
                                  G   am   A
                                  I   oni  C
                                  A   ppl  E
      Tecnicamente, a composição desse primeiro jogo apresenta problemas graves. Por exemplo, as duas primeiras respostas tiveram suas letras finais arbitrariamente retiradas para possibilitar a formação dos acrósticos. Tratava-se, entretanto, do início da prática de um jogo. O próprio passatempo das palavras cruzadas, em seu começo, caracterizou-se por uma série de impropriedades que mais tarde foram corrigidas.

      Se quiser continuar a conhecer os artigos sobre o jogo do acróstico duplo publicados no Illustrated London News até 27/12/1856 (mais 4 páginas), clique aqui.

      Na próxima página, conheça a história da descoberta do (até agora) primeiro jogo do acróstico duplo, publicado 4 anos antes da famosa e polêmica edição do Illustrated London News.
Referências
300 Best Word Puzzles, Henry Ernest Dudeney, Charles Scribner's Sons, Nova Iorque, 1968
Illustrated London News, George C. Leighton, Londres, 30/8/1856
The Great Exhibition and the Eve of the Crimean War, texto no site da BBC
The Strange World of the Crossword, Roger Millington, Book Associates Club, Londres, 1975
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Páginas iniciais: Roteiro Romanceado | História | Índice Geral | Ancestrais | Os Acrósticos

Autor: Sérgio Barcellos Ximenes