História das Palavras Cruzadas

O período milenar entre o desaparecimento da "cruzada" egípcia de hieróglifos e o surgimento dos modernos jogos de cruzamento de palavras.
 
Enquanto a Cruzada Não Vem ...
Os poetas brincam
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      Entre o último exemplar conhecido da "cruzada" egípcia de hieróglifos, datado da XXI dinastia (1085 - 950 a.C.) ou da XXII dinastia (950 - 820 a.C.), e o primeiro exemplar da cruzadas modernas, em 1913, houve um hiato de quase três milênios. Durante esse período, novos jogos de cruzamento total de palavras só começaram a ser inventados a partir da segunda metade do século XIX. Não foram poucos: mais de 20 formas básicas e quase uma centena de modalidades. Todas, entretanto, derivaram de dois outros jogos: o jogo do acróstico e o quadrado de palavras, nessa ordem de surgimento.

      O jogo do acróstico surgiu do acróstico literário. Esse é formado por uma disposição de palavras na qual as letras iniciais dos versos, quando lidas em seqüência, revelam um nome, palavra ou frase. Idealmente, o elemento vertical deve refletir o tema dos versos. Exemplo:
                        B ela terra, por poucos possuída,
                        R ascunho de uma pátria indefinida,
                        A morosa e sofrida é tua gente.
                        S e em teu formoso trono reina a trama,
                        I nfeliz é o futuro desse drama.
                        L iberta-te da lama: vira enchente ...
      Também são considerados acrósticos os poemas cuja coluna vertical de letras apareça no final e/ou no meio das linhas, e aqueles em que cada estrofe comece por uma letra do elemento vertical. Nesse último caso, é comum o acróstico de letras dispostas em ordem alfabética.

      Quanto à origem, Diógenes Laércio, biógrafo grego do século III, atribui o acróstico literário ao poeta grego Epicarmo (c. 525 - c. 450 a.C.), um dos fundadores da comédia. Da vasta obra de Epicarmo, mais de 50 peças escritas em dialeto siciliano, só restam fragmentos, mas Diógenes afirma, em "Vida dos Filósofos Ilustres", que aquele autor fazia constante uso do acróstico nos textos.

      Na verdade, o acróstico foi uma criação dos antigos egípcios, provavelmente no final do segundo milênio antes de Cristo. No início, esse enfeite poético aparecia apenas em textos e consistia de uma coluna de hieróglifos cruzando com as linhas de símbolos; por volta de 1350 a.C., a prática tinha evoluído para as inscrições em estelas e para elaborados esquemas de cruzamento total de hieróglifos.

      Em textos, existem vários hinos egípcios apresentando acrósticos tradicionais (cruzamento de uma coluna de hieróglifos com sentido completo), datados do final do segundo milênio ao início do século X a.C. Além desses, uma modalidade do acróstico seqüencial também foi comum, a partir do final do segundo milênio, e tem como o exemplar mais conhecido o do Papiro Leyden, cuja datação varia de 1260 a.C. até cerca de 2000 a.C. A maioria dos historiadores opta pelo período entre a XVIII (1567 - 1320 a.C.) e a XIX (1320 - 1200 a.C.) dinastias. Traduzido em 1954, o Papiro Leyden contém textos mágicos, críticas a maus faraós e hinos religiosos. Nesses últimos, há duas interessantes semelhanças com o texto bíblico: a primeira refere-se o "Antigo Testamento", pois um dos hinos afirma que o nome do deus maior e único deve ficar oculto, já que seu mistério, poder e glória ultrapassam tudo o que o homem pode conceber; a segunda semelhança refere-se ao "Novo Testamento", pela introdução de uma "santíssima trindade" (Amon, Rá e Ptah) como base da doutrina.
Capa de livro sobre o Papiro Leyden

Livro sobre o papiro leyden
      O acróstico do Papiro Leyden tem por tema o deus Amon. É um acróstico lingüístico que esconde um acróstico numérico seqüencial por meio de um jogo de palavras muito semelhante ao do trocadilho. Cada estrofe começa e termina com uma palavra que assemelha-se, em som, ao número da estrofe (exemplos hipotéticos: "dois" substituído por "dos"; "cinco" substituído por "sinto"). Algumas estrofes não trazem a repetição do som no último verso.

      Na XX dinastia (1200 - 1085 a.C.) destaca-se um poema constituído de sete canções amorosas. Intitulado "O Passeio", contém falas masculinas e femininas alternadas e apresenta o mesmo esquema de numeração do Papiro Leyden, com cinco usos do trocadilho em seus sete números. Ainda no segundo milênio, uma terceira forma de acróstico foi praticada pelos egípcios: a repetição do primeiro verso em todas as estrofes de uma seção de um longo poema. Nas seções seguintes, outro verso inicial era repetido.

      Em estelas, o primeiro acróstico, em seu sentido mais genérico (apenas uma linha vertical formando uma palavra ou frase), foi encontrado numa inscrição funerária do Antigo Egito e data de cerca de 1290 a.C. Trata-se de um cruzamento de hieróglifos situado na coluna central de um texto composto de várias linhas ¾ um acróstico central ou mesóstico. Também devem-se aos antigos egípcios, entre 1085 a.C. e 820 a.C., a criação de textos com vários acrósticos internos numa estela, conforme descoberta do professor J. Clère, e a criação do primeiro jogo de cruzamento total de signos lingüísticos, por volta de 1350 a.C. Nesse tipo de jogo, do qual só existem três exemplares, todos inscritos em estelas, as colunas de hieróglifos podem ser tecnicamente consideradas como acrósticos.

      Ainda no segundo milênio antes de Cristo, existe o registro do chamado quase-acróstico, um padrão de disposição de palavras que caracterizou a poesia ugarítica. Ugarit era uma cidade na costa da atual Síria, na qual viveram os fenícios. Lá, por volta do século XIV a.C. foi inventado um alfabeto representado graficamente por 30 caracteres, o ugarítico, muito semelhante ao idioma acadiano falado na Mesopotâmia. No século XX, arqueólogos descobriram em Ugarit várias tabuinhas de argila com poemas em escrita cuneiforme, isto é, com sinais traçados pelo uso de uma espátula. Esses poemas exibiam uma disposição inédita de palavras que passou a ser denominada de "quase-acróstico".

      O quase-acróstico é a repetição de uma letra no início de cada um dos versos de um poema. Trata-se, de fato, do fenômeno lingüístico da aliteração. Além dessa forma, as tabuinhas também continham poemas nos quais uma palavra aparecia sucessivamente no início dos versos. Nesse caso, o termo técnico adequado é "anáfora".

      Na próxima página, leia sobre os "acrósticos acadianos" e os acrósticos do "Antigo Testamento" bíblico.
Referências
Benét's Reader's Encyclopedia, Quarta Edição, HarperCollins Publishers, Nova Iorque, 1998
"Enciclopédia Mirador Internacional", Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda, 1977
"Grande Enciclopédia Delta Larousse", Editora Delta S.A., Rio de Janeiro, 1973
L'Acrostico nella storia, de Carlo Guerra
Near Eastern Acrostics And Biblical Acrostics: Biblical Acrostics And Their Relationship To Other Ancient Near Eastern Acrostics, John F. Brug, 1987 (em arquivo PDF)
Site da Encyclopaedia Britannica
The Columbia Encyclopedia, Quinta Edição, Columbia University Press, 1993
The Oxford Guide to Word Games, Tony Augarde, Oxford University Press, Nova Iorque, 1984
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Autor: Sérgio Barcellos Ximenes